sábado, 31 de março de 2012

Fukushima, o medo pós-nuclear

Os japoneses, que amargam até hoje as dolorosas lembranças das bombas nucleares americanas jogadas em Nagasaki e Hiroxima, em março de 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, e do violento terremoto em Tóquio, em 1923, vivem o pesadelo da reconstrução da região da central nuclear de Fukushima Daiichi, cujas radiações e limpeza dos reatores podem levar mais de 40 anos.
O tremor no fundo do mar, de 9 graus, precedido do tsunami que destruiu, em 11 de março do ano passado, enormes áreas do Noroeste do Japão, colocou em dúvida o modelo nuclear, devido à magnitude da tragédia (cerca de 20 mil mortos e 340 mil refugiados) e às incertezas atuais sobre os altos riscos para a população. As respostas e alternativas são difíceis porque deveria se analisar a essência do capitalismo e, provavelmente, a busca de novo modelo industrial menos agressivo e menos gerador de produtos efêmeros.
Ainda ontem foram divulgadas informações alarmantes sobre a estabilidade do reator atingido, já que ele continua apresentando riscos de aquecimento. Kazuhiko Kudo, professor de Energia Nuclear da Universidade de Kyushu, Sudoeste do Japão, explicou ao jornal “New York Times” que “tudo que pode ser feito agora é jogar água dentro dos reatores e rezar para que novo tsunami não abale a região”.
Havia, de fato, até o acidente de Fukushima, a impressão de que a energia nuclear poderia ser cada vez mais segura e limpa (não emissora dos gases do efeito estufa), graças a avançados sistemas de proteção das centrais nucleares.
Argumentava-se que, no Japão, ao contrário dos acidentes nucleares de Three Miles Island (em 1979, Estados Unidos) e de Chernobil (em 1986, na ex-União Soviética), o vazamento da radiação fora causado pelo tremor e tsunami e não por uma falha da própria central nuclear. Acontece que, devido à intensidade dos fenômenos naturais, o sistema de resfriamento do reator japonês falhou e provocou o vazamento. Questiona-se, inclusive, a postura da empresa Tokyo Electric Power (Tepco), administradora das centrais de Fukushima, e das autoridades japonesas por terem validado este tipo de instalação, já que o arquipélago japonês é sensível a tufões anuais, deslizamentos de terra, erupções vulcânicas, tremores e tsunamis, em função de suas características geológicas e da sua localização sobre imensas placas tectônicas.
Segundo dados de especialistas, mais de 119 terremotos com magnitude superior a 6 graus já abalaram este país, incluindo os de Tóquio (140 mil mortos, em 1923), o de Sanriku (3.064 mortos, em 1930), o de Fukui (3.800 mortos, em 1948) e o de Kobe (6.437 mortes, em 1995).
Com a clareza de que o petróleo representa uma fonte energética finita com sinais de esgotamento em cerca de 80 anos, o desenvolvimento da energia nuclear se acelerou em função do aumento da demanda industrial. Existem 441 centrais nucleares no mundo, sendo que a maioria está na Europa Ocidental. Antes de Fukushima, estimava-se crescimento deste número em mais de 60% até 2030. Prevê-se, na China, a construção de mais 34 novas centrais nucleares, além das 13 que estão em atividade.
Mas seria altamente recomendável rever estes planos de desenvolvimento nuclear, como, por exemplo, já o fez a Alemanha, que desativará todas suas centrais até 2022 e intensificará os planos de energias renováveis.
Devemos nos solidarizar com os japoneses, cuja dignidade, organização, autocontrole e altivez não podem ser sinais de submissão e passividade em relação a decisões governamentais irresponsáveis a favor da energia nuclear. O Japão, que sofreu na pele os efeitos da radiação mais uma vez na sua triste história de agressões, deverá privilegiar a redução absoluta de desperdício e reduzir o consumo desenfreado, em troca do bem-estar e qualidade de vida para as próximas gerações.
As lições de Fukushima nos fazem refletir não somente sobre a urgente mudança para as energias renováveis, como também sobre novo comportamento frente aos nossos hábitos capitalistas.

Fonte: Jornal A Tarde

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