sábado, 10 de março de 2012

Funkadelic - O Funkão do Crioulo Doido

O Funkadelic era uma das bandas que melhor representaram a black music americana. Liderada por George Clinton, e tendo o baixista Bootsy Collins como fiel escudeiro, a Funkadelic, que em uma formação posterior passou a se chamar Parliament, era uma verdadeira usina sonora de swing, balanço, e tudo mais que tornaria a música negra e as gravadoras Motown e Stax uma das maiores referências sonoras dos anos 60 e 70.
Por ocasião do lançamento de um cd duplo da banda, o crítico José Emílio Rondeau, que era correspondente internacional de O Globo, escreveu de Los Angeles sobre o lançamento e a banda:
"O que acontece quando um barbeiro de subúrbio cheio de ideias musicais, sociais, políticas, e sobretudo esotéricas, ouve muitos discos de Sly Stone, Bob Dylan e os Beatles? ele pira e vira Georger Clinton, o Chacrinha do funk, leme, cérebro e principal voz do império funk que dominou o planeta durante toda uma década, de 1970 a até meados dos anos 80, através de dois núcleos criativos principais, as bandas Funkadelic e Parliament.
Pai de muito do que se ouve de funk puro ou mesmo híbrido - de Fishbone a Living Colour, de Red Hot Chili Peppers a Public Enemy, de Prince a Arrested Development - Clinton caminhou bem adiante dos passos traçados por James Brown e Sly Stone ao criar não somente canções e discos geniais que dariam o tom da soul music de seu tempo e influenciaram sucessivas gerações de compositores e instrumentistas, mas também todo um conceito ecumênico baseado na ideia do funk como intrumento de reforma e sustentação da raça humana.
Nas letras de música e nos discos que costumava usar para unir uma canção a outra, George inventava um mundo de funk-astronautas e naves espaciais engraçadíssimo e absurdo, à primeira vista, mas decididamente profundo e sério, por outro lado.
Tudo era bem definido e claro: o Funkadelic se encarregava do funkão pesado, distorcido, sujo, punk-funk antes de existir um termo que o definisse. O Parliament, enquanto isso, ficava com as canções mais melodiosas, as produções mais polidas até uma 'babalada' ou outra. E desses dois pólos, outros rebentos se encarregavam de estilhaçar e variar mais ainda o evangelho de Clinton: Bootsy's Rubber Band - com o superbaixista Bootsy Collins (que aparece na foto abaixo), o homem que tocou com James Brown em 'Superbad' e 'Sex Machine', fiel escudeiro de Clinton - Brides of Funkeinstein, Parlet, Horny Horns. Todos grupos, vale dizer, prolíficos. Ao todo, esses inúmeros agregados musicais geraram uma discografia superior a 30 discos.

Parte desse riquíssimo legado está agora reunido num caixote de dois cds editados pela Casablanca Records nos Estados Unidos, com 25 faixas dedicadas exclusivamente ao Parliament, o lado, digamos, mais 'comportado' de George Clinton, o lado do que hoje se conhece por 'charme'.
Os fãs de funk hoje com seus trinta e poucos anos e que nos anos 70 se ligaram, nem que de leve, ao movimento Black Rio reconhecerão aqui muita da munição dos bailes de subúrbio de tempos menos beligerantes: 'P.Punk (wants to get funked up)' e 'Give up the funk' (tear the roof off the sucker)' resumem plenamente o evangelho funk de George, com um balanço hipnótico e uma retórica inteligente e bem articulada de dominação mundial através da música. Não é à toa que Greg Tate, jornalista que assina parte do libreto que acompanha o caixote, equipara Clinton a Malcon X, à Nação do Islam e aos Panteras Negras." 
 
Fonte: Tarati Taraguá

Nenhum comentário: