Rio -  Tainá e Luciana (nomes fictícios), 19 anos. A mesma idade, a mesma história. Elas mergulharam no crack e engravidaram Uma luta contra a dependência química e sonha em reaver o filho, que vive em abrigo. A outra perdeu a batalha: fugiu de clínica já com barrigão.
A gestação que surge a partir da vida que escoa no vício é realidade cada vez mais comum no Rio. Hoje, de cada dez mulheres apreendidas nas cracolândias, oito estão grávidas, segundo estima Ana Carolina Freitas, educadora que atua nas operações da Secretaria Municipal de Assistência Social.
A notícia da gravidez não afasta a mulher da droga. Muitas sequer percebem que esperam bebês e são surpreendidas com a revelação já no fim da gestação, geralmente prematura, afirmam assistentes sociais.
“A maioria das garotas que recolhemos nas cracolândias estão grávidas. Elas não sabem quem são os pais porque geralmente se prostituem para ter pedras de crack e não se cuidam. Às vezes, a gente recolhe a mulher com um barrigão e, meses depois, ela está novamente lá. Quando perguntamos, ela diz que o bebê ficou na maternidade ou está com o Conselho Tutelar. O crack para elas é mais forte do que a maternidade”, conta Ana Carolina.

Perda da guarda
O DIA  revelou neste domingo que o uso de crack por mães e pais já fundamenta a maioria dos pedidos de destituição do poder familiar feita pelo Ministério Público estadual no Rio de Janeiro.
Em caso de bebês afastados de suas famílias pela Justiça, a frequência é ainda maior, alcança 90% dos casos.Internada em maio com cinco meses de gestação na Clínica Ricardo Iberê Gilson, em Valença, Tainá sucumbiu à agonia da abstinência.
Sem poder ingerir os mesmos medicamentos e dosagens que outros pacientes, por conta da gravidez, fugiu com o filho na barriga pela terceira vez.
Ela fora internada após apelo da família à Justiça. Tainá abandonara o lar para viver em cracolândias e não sabe quem é o pai da criança.
Foto: Severino Silva / Agência O Dia
Luciana visita Victor toda semana no abrigo. Em luta contra o crack, ela se esforça para poder recuperar a guarda | Foto: Severino Silva / Agência O Dia
“Acho que meu filho vai ser meu companheiro contra a droga. Espero uma vida melhor para ele. Quero muito ficar com meu filho, cuidar dele”, disse ela na semana de sua internação. A manutenção da guarda da criança estava condicionada a um relatório que a instituição teria que enviar à Justiça quando nascesse.
“A última informação que a família dela tem é a de que ela estaria em São Paulo. Ela ligou para a mãe para dizer que não era para se preocupar porque estava bem. Não sabemos se a criança já nasceu. A mãe dela está desesperada”, conta Rozane Gonçalves Pinto, diretora da clínica.
Ela revela que Tainá atravessava o período mais difícil do tratamento quando abandonou tudo.

Luta em nome do filho
O crack levou Luciana para as ruas. Mesmo quando soube da gravidez, continuou na cracolândia do Jacaré, de onde foi levada, às pressas, para dar à luz Victor (nome fictício), no Hospital Geral de Bonsucesso, há seis meses.
Ela descobriu a gestação ao ser socorrida num posto de saúde. “Na época, eu não queria ter um bebê. Continuei usando crack”, desabafa a jovem, que visita Victor toda semana na Casa de Passagem Ana Carolina, em Bonsucesso.
Desde que ele nasceu e foi para o abrigo, ela luta contra a droga: “Tudo que eu quero é levar meu filho comigo. Antes, eu não pensava no futuro, era só a droga”.
Psicóloga da casa, Celina Freitas acompanha a evolução de Luciana, que se diz livre do vício: “No início, ela vinha do Jacaré, suja, com fome. Hoje, tem outra postura, é apaixonada por esse filho e isso está ajudando muito”.

Em busca da guarda
Hoje sem a guarda do filho, Luciana pode recuperá-la se provar sua recuperação. “Nada impede que isso ocorra. Se a mulher abandonou o recém-nascido na maternidade, não o procurou e só voltou três meses depois, para mim é um caso irreversível porque você não vira as costas para um filho e volta depois. Mas se essa mãe não fugiu do hospital e começa a fazer tratamento contra a droga, é um caso diferente”, explica a promotora Ana Cristina Macedo.
Algumas dessas mães não viveram a vida toda na rua, têm família que pode ajudá-las a se livrar do vício, pondera a promotora.
“Tivemos o caso de uma mulher que era esclarecida e queria muito aquele filho. Ela ficou no hospital, ajudou as enfermeiras, foi protetora. Na audiência, eu fiquei até comovida. Então você vê que a maternidade pode fazer a pessoa mudar. É possível, mas não é a maioria”, revela Ana Cristina.