domingo, 21 de outubro de 2012

"Sou tarado por trabalho", diz Johnny Massaro, o Kiko de ‘Guerra dos Sexos’

“Nem sei se me considero um artista”, diz Johnny Massaro, ator há nove anos, diretor novato de cinema e teatro, roteirista... um profissional da arte, enfim. No ar diariamente como o nerd Kiko, em ‘Guerra dos Sexos’, novela das 19h da TV Globo, o rapazinho de 20 anos vai fundo quando o assunto é trabalho, mesmo diante das incertezas da vida de artista.
“Eu sou tarado por trabalho, faço tudo com o mesmo empenho. Talvez, atuar seja o mais delicado porque é a minha cara, o meu corpo, o meu cabelo, o meu dente, a minha espinha, o meu nariz, a minha voz e o seu julgamento”, diz ele, que começou na TV em ‘Floribella’ (2005), na Band, interpretou outro nerd, o Fernandinho, em ‘Malhação’, já dirigiu peças e filmes e, atualmente, está envolvido em outro projeto paralelo à TV: “Estou começando a produzir o curta ‘Amarillas’!”.
O inquieto Johnny se sente feliz e honrado por contracenar com astros com Gloria Pires e Fernando Eiras em ‘Guerra dos Sexos’, mas carrega a certeza de que a maior responsabilidade em sua vida profissional é estar satisfeito consigo mesmo. “Para mim, esse é o desafio: saber usar minhas inseguranças, meus medos, minha vaidade, etc. O ator anda numa corda bamba no meio de um circo. Ele vai se equilibrando, com medo de cair na frente das pessoas, rezando pra chegar a algum lugar. E não, desistir nunca é uma opção”, conclui o jovem, em um papo exclusivo com a coluna, mostrando que, independente dos rótulos artísticos, veio para ficar.
Johnny Massaro: "Nãoquero fechar nenhuma porta me rotulando disso ou daquilo".
Johnny Massaro: "Nãoquero fechar nenhuma porta me rotulando disso ou daquilo".
Heloisa Tolipan: Johnny, como tem sido a experiência de dividir a cena com atores como Gloria Pires e Fernando Eiras em 'Guerra dos Sexos'? Ainda rola um friozinho na barriga na hora do "ação!"?
Johnny Massaro: Acho engraçado essa ser sempre a primeira curiosidade das pessoas! É claro que estar ao lado da Glória ou do Fernando, artistas que todos admiram, inclusive eu, é algo grande. É claro que isso vem, invariavelmente, atrelado a um certo tipo de "responsabilidade". Mas o que me importa, na verdade, é a "responsabilidade" que eu tenho comigo mesmo: como ator e como pessoa. O friozinho na barriga vem mais daí do que de outro lugar. Fora isso, dividir cena com eles é incrível e divertido, sempre. Eles não são quem são por acaso.
HT: Kiko, o seu personagem na novela, é um nerd que se acha desengonçado e passa por uma "crise existencial". Você já viveu outro nerd, o Fernandinho, em ‘Malhação’, que tinha um perfil mais engraçado. Em alguma medida, houve inspiração no Fernandinho para construir o Kiko ou você preferiu criá-lo a partir do zero?
Johnny na pele do nerd Kiko, seu personagem na novela 'Guerra dos Sexos'
Johnny na pele do nerd Kiko, seu personagem na novela 'Guerra dos Sexos'
Johnny: Ser ator é muito louco: ao mesmo em tempo que você se liberta de si mesmo, você acaba se vendo prisioneiro de si próprio. Para o Kiko, eu busquei descobrir esses limites do Johnny, busquei entender o que eu sabia fazer, o que eu não sabia e, principalmente, busquei entender onde eu queria chegar. Antigamente, eu não tinha esse tipo de inteligência, era uma coisa meio bruta. Hoje, eu tenho mais medo, no bom sentido. De qualquer maneira, eu não sou do tipo de ator que acha que o personagem é uma entidade ou uma coisa muito distante. O personagem são variações do que você é, do que você viu, do que você viveu, então acho que nunca surge do zero. Eu me preocupei, sim, em não repetir o mesmo registro do Fernandinho, tanto dentro da TV, quanto fora dela. Procurei também fugir do estereótipo. O texto e a caracterização já são suficientes pra construir a figura do "nerd", o meu trabalho está sendo achar o humano por debaixo dos óculos e da camisa xadrez.
HT: E por falar em inspiração, o que te inspira como artista, no dia a dia? 
Johnny: Acho que duas coisas me movem: eu sou muito jovem e, nesse momento, o fato de poder usar minha juventude me inspira. Alem disso, ouvi esses dias que "para ser original, ou você não nasce ou você não morre" e isso pra mim é tudo. A ânsia pela originalidade é uma babaquice! O que me inspira é o fato de eu e você não sabermos o "porquê" de estarmos aqui. Essa é maior sacada de todos os tempos! Acho de uma genialidade tremenda, seja de quem for, todo esse mistério que envolve a vida e a morte. Me sinto plenamente inspirado por não querer mais responder, nem perguntar nada, nesse momento da minha vida. O que me inspira, agora, é essa coisinha que não é nem pergunta, nem resposta.
HT: Você só tem 20 anos e nove de carreira, desde que começou no teatro. Quais foram os maiores desafios até aqui? Pensou em desistir de ser ator?
Johnny: Outro dia ouvi uma atriz se questionar: "Será que um dentista sente medo ao fazer uma obturação?". E essa dúvida também me tomou. E até agora não sei se um dentista sente ou não sente medo. Todos os atores que conheço são inseguros, sentem medo, são vaidosos. Na verdade, todas as pessoas são, claro. Mas o artista se expõe. E o seu melhor material geralmente vem desses lugares. Para mim, esse é o desafio: saber usar minhas inseguranças, meus medos, minha vaidade, etc. Claro que de vez em quando acabo não me suportando muito, mas faz parte. Todo mundo anda numa corda bamba. Mas o ator anda numa corda bamba no meio de um circo. Ele vai se equilibrando, com medo de cair na frente das pessoas, rezando pra chegar a algum lugar. E não, desistir nunca é uma opção.
HT: Além de ator, você também é diretor e roteirista. É capaz de dizer em qual das funções se sente mais à vontade?
Johnny: Eu gosto de não me sentir totalmente à vontade em nenhuma função. E eu sei que não posso me sentir a vontade, porque isso me mataria. Então, eu sempre tento estar um pouco desconfortável e, por incrível que pareça, isso me dá um certo tipo de conforto. Eu sou tarado por trabalho, faço tudo com o mesmo empenho. Talvez, atuar seja o mais delicado porque é a minha cara, o meu corpo, o meu cabelo, o meu dente, a minha espinha, o meu nariz, a minha voz e o seu julgamento.
HT: Quais são os projetos paralelos ao trabalho na TV que te movem atualmente?
Johnny: Nesse ano, me formo em Cinema, finalizo ‘Guimba’, que está em fase de sonorização, e estou começando, junto com um milhão de amigos queridos, a produzir ‘Amarillas’, um curta que escrevi faz uns quatro anos e que vou dirigir.
HT: Ao assumir tantas funções profissionais simultaneamente, você se sente um jovem artista "prodígio"?
Johnny: Deus me livre! Esse negócio de "prodígio" é uma coisa tão antiga, e eu nem sei se me considero um artista. Tenho um problema em me olhar no espelho e dizer "É, Johnny! Você é x.", não quero fechar nenhuma porta me rotulando disso ou daquilo.
HT: Com quem você gostaria de atuar/quem você adoraria dirigir/para quem você gostaria de escrever?
Johnny: Eu gosto/gostaria de trabalhar com pessoas sinceras, problemáticas, corajosas e bem humoradas. Não nessa ordem e ninguém em especifico.
HT: Consegue pensar em quem será o Johnny Massaro daqui a 10 anos?
Johnny: Consigo, claro. Vai ser um cara de 30 anos que não vai mais acreditar em nada do que disse nessa entrevista.

Fonte: Helô Tolipan (Jornal do Brasil)

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