domingo, 30 de dezembro de 2012

Natalidade: O País das cabeças grisalhas

O ano que agora termina será aquele com o mais baixo número de nascimentos em Portugal, desde que há registo. Um problema actual que terá reflexos no futuro, tornando a nossa sociedade insustentável do ponto de vista económico e social. Pelo País, multiplicam-se os casos de solidão entre os mais velhos e de lares sem condições mas com muita procura.
Há notícias que de tantas vezes serem repetidas parece que já nem sequer são notícia. Notícias como esta: "Em Junho, o número de nascimentos em Portugal foi de 6439, divulgou o Instituto Nacional de Estatística. Nos últimos 60 anos, não há registo de um mês com tão poucos nascimentos. A descida da natalidade de Junho representa menos 19 por cento de bebés face ao mesmo mês de 2011." Esta notícia foi publicada no Correio da Manhã no início de Novembro, e sabe-se agora da confirmação dessa tendência, o que fará de 2012 o ano com menor número de nascimentos desde que há registo, bem abaixo da fasquia psicológica dos 100 mil.

O País está cada vez mais envelhecido, devido à quebra da natalidade

Em 2012, a Grécia foi o nosso país-consolação, aquele que usávamos sempre para dizer: "Sim, isto aqui está bastante mau, mas pelo menos não somos a Grécia..." Infelizmente, no que diz respeito à taxa de natalidade, nem sequer a Grécia serve de consolo. Para esse efeito teremos mesmo de utilizar a Bósnia. Porque a Bósnia é o único país no mundo inteiro (sim, no mundo inteiro) que tem uma taxa de natalidade inferior à nossa. O buraco nas contas do país é bastante grande, mas não tão grande quanto o buraco na base da nossa pirâmide demográfica.
Se a crise económica é aquilo que tem atormentado o nosso presente, a crise demográfica é bem capaz de ser aquilo que vai dar cabo do nosso futuro, a não ser que abramos as fronteiras à emigração subsariana (à velocidade a que o terceiro mundo se está a desenvolver, são os únicos que ainda querem vir) em idade reprodutiva. Tristemente, a tragédia demográfica que assola o país é como a tragédia ambiental que assola o planeta - demasiado lenta, e demasiado afastada do nosso presente, para que alguém sinta a urgência imparável de agir. E assim, não há qualquer política perceptível de combate ao flagelo de uma sociedade sem crianças, para além de umas medidas coloridas de aumento de licenças de paternidade, sem dúvida justas, mas que são como tentar combater o cancro com aspirinas.
Com cada vez menos jovens e cada vez mais reformados, as consequências são óbvias: vivemos numa sociedade absolutamente insustentável, e que continuaria a ser insustentável mesmo que os níveis de desemprego e de crescimento económico não fossem o que são. Mesmo que o buraco do BPN não existisse. Mesmo que as PPP não fossem uma trafulhice escandalosa. Mesmo que o único Sócrates fosse o grego. Mesmo que as offshores acabassem. Mesmo que todos os políticos, todos os banqueiros e todos os grandes advogados do planeta tivessem asas brancas nas costas e um halo fluorescente na cabeça.

A GAFE DE MANUELA FERREIRA LEITE
Um dos momentos muito comentados do ano ocorreu logo a 10 de Janeiro, quando num programa televisivo Manuela Ferreira Leite sugeriu a possibilidade de quem tem mais de 70 anos vir a ter de pagar a sua própria hemodiálise. A afirmação competiu em popularidade com a famosa boutade da suspensão da democracia, mas mesmo que a questão não tenha sido colocada da forma mais elegante, a onda de indignação que gerou demonstra que a maneira que muita gente tem de olhar para o futuro é fechando os olhos, esperando que as coisas se resolvam por si. Não resolvem.
E nesse sentido, tudo aponta para a possibilidade de surgir uma tempestade perfeita, porque a pressão está colocada em simultâneo nos dois extremos da antiga pirâmide. Ou seja, não se trata apenas da queda da natalidade ou do aumento da esperança de vida. Trata-se das duas coisas ao mesmo tempo, e de forma muito intensa. Por um lado, nascem cada vez menos crianças, por outro, Manoel de Oliveira comemorou o seu 104º aniversário.

Fonte: Correio da Manhã

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