Rio -  Morreu na madrugada desta quinta-feira mais um homem baleado num suposto confronto em um beco com policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Morro do Andaraí, na Zona Norte, na noite desta quarta. Ednilson da Conceição, de 21 anos, foi operado no Hospital Federal do Andaraí, mas não resistiu.
Ednilson estava com Jean Marlon Alves Vieira, 18, que já teria chegado morto na unidade. Ambos tinham passagem pela polícia. Drogas, um revólver e a réplica de uma pistola foram apreendidas com eles, segundo a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP). Parentes denunciam que não houve confronto, ambos estavam desarmados e as armas foram colocadas no local pelos militares.
Segundo moradores, Jean e Ednilson foram flagrados fumando maconha no morro por volta das 18h. Os policiais levaram a dupla para a sede da UPP, mas os jovens foram liberados em seguida. Por volta das 21h30, os militares voltaram a encontrar os suspeitos na localidade do conhecida como Escadão, na Rua Leopoldo, principal acesso ao Morro do Andaraí. Os jovens teriam sido executados, segundo eles.
Foto: Fotos: Osvaldo Praddo / Agência O Dia
Jean (à esquerda) e Edinilson | Fotos: Osvaldo Praddo / Agência O Dia
“Vi meu esposo tentando se defender enquanto os policiais atiravam. O PM ainda tirou uma arma do bolso e colocou na mão dele. Depois, guardou a arma em um saquinho para servir como prova. Foi tudo armado para parecer bandido. Os policiais não gostam dos meninos da favela, e sempre perseguiram o grupo do meu marido”, garantiu a mulher de Ednilson, que preferiu não se identificar.
Após os disparos, diversos moradores teriam corrido para o local. De acordo com os relatos, os policiais não deixaram ninguém se aproximar dos feridos. Os PMs teriam usado spray de pimenta e apontado armas na direção de quem se aproximava.
“Já sabia da confusão mais cedo com meu irmão e fui correndo para o local. Pedia para o policial deixar eu ver quem estava caído, mas eles não liberavam. Ainda consegui ver meu irmão se agonizando e debatendo no chão. Só consegui chegar perto depois que ele parou de se mexer. Os policiais esperaram ele morrer para ter certeza que não iria mais falar nada”, contou o irmão menor de Jean, que também não quis se identificar.
Parentes acusam policiais de ameaças
Moradores do Morro do Andaraí ainda afirmam que os policiais fizeram novas ameaças no hospital. Cerca de 20 deles protestaram na unidade. “Eles falavam que dois já tinham ido, mas ainda faltavam outros dois do grupo. Eram quatro amigos que andavam juntos. Não sei o porquê dessa implicância toda”, comentou, revoltada, uma moradora.
Em nota, a CPP informou que os PMs estavam em patrulhamento quando avistaram os dois suspeitos vendendo drogas em um beco da Rua Leopoldo, na localidade conhecida como Escadão, por volta das 21h. Ao verem os militares, Jean e Ednilson atiraram. Um soldado revidou e, com apenas um tiro, feriu os dois homens. Com eles, ainda segundo a coordenadoria, foram apreendidos 152 papelotes de cocaína, 106 trouxinhas de maconha, um revólver calibre 32 e a réplica de uma pistola.
Já familiares dos mortos alegam que cada um foi morto com tiro de fuzil. Segundo eles, médicos do Hospital do Andaraí informaram que Jean levou um tiro no rosto e que o projétil que matou Ednílson entrou na nuca e se alojou na testa.
De acordo com policiais da 19ª DP (Tijuca), uma perícia foi feita no local. Pelo menos dois fuzis que estavam com os PMs foram apreendidos. Eles prestaram depoimento durante a madrugada. A delegacia vai investigar a alegação de auto de resistência e de porte de arma e drogas. Ainda segundo a polícia, Jean tinha passagens por roubo, quando ainda era menor de idade. Ednilson tinha anotações criminais por tráfico de drogas.
'Comemoração' no Facebook
O incidente no Morro do Andaraí ocorreu pouco mais de 48 horas após o ataque de traficantes a sede e ao container de apoio da UPP da Favela Nova Brasília, no Complexo do Alemão. Na ocasião, a soldado Fabiana Aparecida de Souza, de 30 anos, foi morta com um tiro no tórax. Ela foi sepultada nesta quarta-feira, em Valença, sua cidade natal, no Sul Fluminense.
No fim da noite desta quarta-feira, PMs da UPP da Fazendinha, também no Complexo do Alemão, detiveram um homem que teria escrito comentários na rede social Facebook comemorando a morte da soldado Fabiana. Segundo a polícia, o suspeito, identificado apenas como Eduardo, é morador da comunidade. Ele foi levado para a 38ª DP (Brás de Pina) onde prestou depoimento.
Ainda conforme a polícia, ele alegou que seu perfil foi invadido por hackers e que a postagem foi feita por outra pessoa. O suspeito foi liberado, mas as investigações vão prosseguir.
Suspeitos são identificados
A Coordenadoria de Inteligência da Polícia Militar divulgou, nesta quarta-feira, imagens de quatro suspeitos de terem participado do ataque à Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Nova Brasília, no Complexo do Alemão, na noite da última segunda-feira. O atentado custou a vida da policial militar Fabiana Aparecida de Souza, de 30 anos.
Os suspeitos foram identificados como: Fernando Cézar Batista Filho, o Alemão, Alan Ferreira Montenegro, o Da Lua, Ilan Nogueira Sales, o Capoeira, e Regis Eduardo Batista, o RG. A PM insiste para que a população ajude a encontrá-los através de denúncias aos telefones do Disque-Denúncia (2253-1177) e pelo próprio 190.
Polícia: 'Investida severa'
Agentes da Divisão de Homicídios (DH) reforçam a busca por criminosos e investigam a dinâmica da situção que culminou no disparo de fuzil que atingiu a jovem policial. O delegado titular da DH, Rivaldo Barbosa, afirmou que o tiro que matou Fabiana partiu de baixo para cima. "Nós teremos uma investida dura, severa, mas sem perder a serenidade para esclerecer o caso", afirmou em entrevista ao RJTV.
Policiais do Batalhão de Choque (BPChq) e das Unidades de Polícia Pacificadora do Complexo do Alemão também vasculham a comunidade Nova Brasília com as imagens dos suspeitos nas mãos. Os PMs ocupam vários pontos da favela. De acordo com alguns militares, os acusados seriam conhecidos na comunidade.
Honras militares
O corpo da soldado Fabiana Aparecida foi sepultado com honras militares na manhã desta quarta-feira no Cemitério Riachuelo, em Valença, no Sul Fluminense. A policial morreu na noite da última segunda-feira, após um ataque de criminosos contra a sede da UPP Nova Brasília, no Complexo do Alemão. Cerca de 500 pessoas, entre parentes, amigos e policiais participaram do cortejo.
Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
Emoção marcou sepultamento de PM morta no Alemão | Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
Antes do sepultamento, foi realizada uma homenagem a Fabiana com uma parada e uma salva de três tiros. O coronel Rogério Seabra, comandante das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a chefe de Polícia Civil Martha Rocha, e o comandante geral da Polícia Militar, Erir Ribeiro Costa Filho, acompanharam a cerimônia. A policial foi homenageada por moradores do município com salvas de palmas. No fim da cerimônia, um helicóptero lançou flores sobre o cemitério.
Comparsas de outras favelas na mira
A prisão de um homem que integrou o tráfico na Cidade de Deus, Zona Oeste, e estava refugiado na Nova Brasília vai levar a polícia a investigar se criminosos de outras favelas antes dominadas pela mesma facção do Alemão podem ter participado do ataque à UPP.
Identificado como Marcelinho da CDD, o suspeito foi localizado ontem junto com outro homem numa casa onde cães farejadores indicaram vestígios de drogas. Marcelinho estava com identidade falsa, tem sete mandados de prisão e era foragido da Justiça.

Fonte: Jornal O Dia