domingo, 11 de setembro de 2016

Adultos, os filhos do 11 de Setembro tiram forças da tragédia de seus pais

Thea Trinidad tinha 10 anos quando ouviu o pai se despedindo da mãe pelo telefone. Lutadora profissional, ela segue o sonho não realizado do pai, que deixou de lutar na escola
NOVA YORK — Eles eram crianças, ou ainda nem haviam nascido, quando os Estados Unidos sentiram a sua dor. No ataque terrorista que mais produziu vítimas em solo americano, mais de três mil crianças e jovens adultos perderam o pai ou a mãe, e se tornaram imediatamente reconhecidos como “os filhos do 11 de Setembro”.
No 15º aniversário do ataque, essas crianças se tornaram adultas, ou estão quase lá, e a construção do legado da data se torna uma tarefa delas. Muitas são guiadas pela determinação de honrar os pais que perderam, ou pelo discernimento que ganharam tão dolorosamente.
O trabalho de Lindsay Weinberg é encontrar e notificar famílias cujos entes queridos morreram, às vezes em circunstâncias violentas. É um trabalho para o qual ela está particularmente preparada.
— Eu dou a eles a pior notícia que poderiam receber, e eu já a recebi. Isso contribui para a empatia que consigo ter com elas — diz a jovem de 26 anos.
Lindsay tinha 12 anos quando representantes da secretaria de saúde de Nova York, onde ela agora trabalha, disseram à sua família que os restos mortais do seu pai foram identificados entre os de outras vítimas do 11 de Setembro. Steven Weinberg era gerente de contabilidade no World Trade Center.

PARA NÃO ACONTECER DE NOVO
Depois de reconhecer como a perícia ajudou sua família a obter respostas, Lindsay se especializou na área, e agora é investigadora. Para ela, o trabalho na secretaria de saúde mostra “como as coisas estão conectadas”.
Já Thea Trinidad conta que o pulso latejava quando ela saiu da arena do Madison Square Garden, em 2014, como lutadora profissional. Antes disso, ela só havia estado lá com o pai. Olhar para o lugar onde eles sempre se sentavam foi como “um soco no coração”, ela diz.
Thea tinha 10 anos quando escutou seu pai dar adeus à sua mãe pelo telefone. Ele ligava das Torres Gêmeas, onde trabalhava como analista de telecomunicações. Com o passar dos anos, ela procurava uma maneira de honrá-lo.
— Eu pensei: o que nós mais compartilhávamos? Era a luta — recorda.
Michael Trinidad tinha sido lutador na época da escola, e não se retraía quando a filha moleque pulava nos móveis. Na verdade, ele dizia: “Você está fazendo errado. Deixa eu te mostrar”, narra Thea, de 25 anos, moradora de Tampa, na Flórida. Agora, ela diz que sente o espírito do pai presente toda vez que entra no ringue.
Alexandra Wald, por sua vez, queria compreender. Mergulhou em livros que falassem sobre as forças e os fracassos que levaram ao 11 de setembro de 2001. Fez quatro anos de aulas de árabe na faculdade, mestrado em Relações Internacionais e procurou trabalhar para a Inteligência.
Era o seu primeiro dia de aula na escola quando Victor Wald, acionista, morreu no World Trade Center. Aos 28, ela trabalha em um projeto de segurança cibernética de uma empresa contratada pelo governo, em Washington.
— Por ter sido afetada pelo contexto geopolítico e ter perdido o meu pai no ataque, eu quis garantir que isso nunca aconteceria novamente.

Fonte: O Globo

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