quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Mentes Perigosas: Francisco da Costa Rocha, o "Chico Picadinho"



Chico Picadinho é conhecido por ter matado e esquartejado duas mulheres, em 1966 e 1976, respectivamente. A última vítima teve seu corpo cortado totalmente em pedaços, e é por isso que tem esse nome.

Painel com as duas vítimas assassinadas por Chico Picadinho
Biografia
Loucos e Perigosos (Blogspot): Nasceu Francisco da Costa Rocha na cidade de Vila Velha (ES), em 27 de abril de 1942. Embora tenha nascido com o nome inteirinho de seu pai, não pode ser acrescido o final 'Filho' ou 'Junior'.
Sua mãe, Nancy, foi uma mulher que tinha muitos amantes e que na maioria das vezes eram casados.
Francisco era um homem rigoroso, ciumento e violento e costumava brigar constantemente com sua esposa, chegando a ameaçá-la de morte e obrigá-la a abortar duas vezes antes de ter o Chico.
Quando tinha 4 anos, sua mãe foi acometida por uma doença pulmonar e a sua família faliu financeiramente, precisando assim morar com um casal de empregados do pai num sítio isolado.
Uma de suas "brincadeiras" era matar gatos para testar suas 'sete vidas', seja por enforcamento ou afogamento em vasos sanitários. Apanhava bastante e quase perdeu a mão uma vez ao ser punido com uma lambada de faca nas costas que o acertou no lugar errado.
Sua mãe voltou para buscá-lo quase dois anos depois, porém ele já não se lembrava mais de quem era ela. Foi morar em Vitória junto com a sua mãe com o objetivo dela manter o sustento da família, que além dele, tinha mais 5 filhos para criar, trabalhando como cabeleireira e costureira e ao mesmo tempo mantinha relações com homens casados e bem de vida.
Estudou em colégio de padres e não era bem visto na instituição. Era briguento, desatento, dispersivo, irrequieto, indisciplinado e displicente, além de não fazer os deveres de casa. Saiu deste colégio por perder a quarta série, tendo estudado a quarta série perdida e a quinta numa instituição estadual. Estudou também no Colégio Americano, mas a sua situação social só piorou ao se declarar ateu por influência de um dos tios, sofrendo rejeição da turma, fato que o levou a abandonar os estudos.
Aos 15 anos, o que ele mais queria era ser marinheiro, mas não pode realizar seu sonho, que não era apoiado pela mãe por medo dele se mudar para Santa Catarina, onde estudaria na Escola Naval.

Com 16 anos, foi morar no Rio de Janeiro com a sua mãe e o companheiro, que reconheceu como padrasto. Dois anos mais tarde, decidiu que queria ser paraquedista, alistando-se na Aeronáutica e pedindo transferência para São Paulo, onde se alojou no Campo de Marte. Foi recruta por seis meses, passando depois para a Infantaria, trabalhando na parte administrativa. No seu local de trabalho, conheceu o americano Mathias, especialista em galvanoplastia. Foi seu cicerone por São Paulo e Rio, desfrutando de jantares no Restaurante Fasano e na Churrascaria Rubayat, entre outros.Depois da partida do amigo texano, que queria levá-lo para os Estados Unidos, Francisco pensou em continuar na carreira militar e seguir na profissão de mecânico de aviação, apaixonado que era pelas engrenagens. Mas a falta de disciplina novamente foi decisiva na escolha.
Saiu da carreira militar e tentou ser policial militar, mas não conseguiu. Através de anúncios de jornais, encontrou o emprego de representante de vendas na empresa Gessy Lever, que mudou o nome para Unilever. Foi demitido por não conseguir cumprir a meta de vendas em função de ter se tornado alcoólatra, pois não gostava da vida que levava, de solidão e viagens pelo estado.
Chico tentou a carreira de corretor de imóveis. Ganhava bem e não tinha horário fixo, conseguindo a chance de viver do jeito que tanto queria. Frequentava teatros com passe livre cedido por parceiros sexuais, bares experimentava todo tipo de droga e participava de orgias sexuais com várias mulheres. Se apaixonou por outras, mas elas logo queriam firmar um compromisso, algo que ele era contra, e por esse motivo passou a se envolver com prostitutas, que, assim como ele, queriam se divertir sem compromisso.


Primeiro crime

Foto da vítima (Foto: Matrix Desvendada)
Terça-feira, 2 de agosto de 1966. Francisco conheceu através de amigos Margareth Suida, uma austríaca de 38 anos, bailarina e que trabalhava como massagista para ajudar no orçamento. No fim da noite daquele dia, após baterem papo num bar, Margareth foi convidada por ele para ir até o seu apartamento. 
Francisco se lembra pouco dos acontecimentos que se seguiram. Eles aparecem em sua memória como flashbacks, sem que tenha uma sequência de fatos definida. Pode-se chegar a algumas conclusões por meio do laudo nº 14.985/66, referente ao levantamento do local de encontro de cadáver realizado pelo perito criminal Adolpho Viesti.Pelas roupas de Margareth sobre o pé da cama e sua lingerie colocada na poltrona, ela ficou nua de livre vontade. Os lençóis estavam desalinhados, e os cinzeiros cheios de bitucas de cigarros de duas marcas diferentes. Pela quantidade de cigarros que foram encontrados ali, consumidos por duas pessoas, horas se passaram antes que Margareth fosse morta.
A relação sexual que tiveram deve ter seguido o padrão de violência que Francisco descreveria como sendo habitual com “certos tipos de mulher”. Margareth apresentava várias mordidas perto dos seios e do pescoço, além de um hematoma no nariz.
Um dos primeiros flashbacks de Francisco foi o de seu avanço sobre a vítima com as mãos nuas em direção ao pescoço para estrangulá-la. Segundo seu relato, os dois “arriaram” no tapete, ao lado da cama, enquanto ela desmaiava.
A próxima memória dele é sobre o cinto com o qual enforcou Margareth, terminando de matá-la. Francisco alcançou-o com apenas uma das mãos, mas não se lembra de onde ele estava. A fivela do cinto ainda com vários fios de cabelo da vítima, ficou largado no chão do quarto perto da penteadeira. Seus brincos foram encontrados embaixo da cama.
O impulso seguinte que ele teve foi ir até o banheiro, mas não conseguia encontrar a chave, que escondia cada vez que levava uma mulher em casa com medo de ser roubado. Depressa, sentindo-se preso, oprimido, desmontou as dobradiças com uma chave de fenda e as deixou juntamente com os pinos em cima da mesa de centro.
O flashback seguinte é do arrastamento da vítima até o banheiro. Francisco se lembra de ter pensado que precisava se livrar do corpo e de tê-lo puxado firmando as mãos nas axilas da bailarina, que não era uma pessoa muito leve. As marcas de sangue em curva no chão, que vão do quarto para dentro do banheiro, indicam que Francisco começou a mutilar Margareth ainda sobre o tapete, ao lado da penteadeira, onde provavelmente tirou sua vida. Se ele a tivesse feito sangrar apenas quando estivesse dentro da banheira, o arremate de metal do carpete na entrada do banheiro não estaria cheio de sangue, nem as marcas de arrastamento poderiam ter sido feitas. O indício final que alicerça essa suposição foi a tesoura deixada sobre o criado-mudo ao lado da penteadeira, que estava manchada de sangue.
Já no banheiro, Francisco colocou o corpo de Margareth na banheira, de barriga para cima. Com uma gilete, retirou seus mamilos e começou a retalhar o corpo de sua vítima. O processo a que submeteu o cadáver da mulher estaria mais próximo de uma dissecação do que de um esquartejamento.
Suas partes moles, como seios e músculos, foram recortadas e removidas; ela foi eviscerada. Sua pelve foi também retirada. Esse estrago ou retirada das partes femininas da vítima é chamada de desfeminização.
Francisco tentou se livrar de algumas vísceras jogando-as no vaso sanitário, mas mudou de ideia no meio do processo. Foi até a cozinha e pegou um balde de plástico, dentro do qual começou a recolher cada recorte que fazia.
Quando terminou de descarnar boa parte da frente do corpo da vítima, Francisco a virou de bruços, ainda dentro da banheira. Dissecou a metade direita das costas e arrancou um pedaço das nádegas.
A confusão de pegadas de sangue encontrada no banheiro permite deduzir que o criminoso entrou no recinto e saiu várias vezes. Os vestígios de pegadas dos pés descalços não obedeciam a uma sequência de um caminhar normal.
No chão do banheiro estava o cinto sem fivela, com o qual Margareth foi estrangulada, outro cinto de couro marrom e uma gravata. Todas essas peças, embebidas em sangue. Sobre um estrado de madeira estava uma mala. Dentro dela, alguns livros, desenhos exóticos e pornográficos. Sobre a pia estava o anel de Margareth, provavelmente retirado por Francisco antes de iniciar a carnificina.
Na perícia do local do crime foi feito um exame minucioso do corpo da vítima. Foram constatadas mutilações generalizadas, evisceração parcial e ferimentos incisos e pérfuro-incisos. As regiões atingidas eram as seguintes: dorsal direita, glútea direita, perianal, parte anterior do pescoço, torácica, abdominal, pubiana, coxa esquerda, braço e antebraço esquerdos. No punho direito da vítima uma atadura cobria uma recente tentativa de suicídio, ainda com a sutura.
Embaixo do ombro de Margareth, dentro da banheira, foi encontrada uma faca de cozinha. Sobre a borda da banheira estava a gilete utilizada, ainda manchada de sangue.
De repente, Francisco começou a voltar a si e a sentir extrema repulsa pelo que havia feito. Perplexo com seus atos, limpou-se com o álcool que estava na garrafa em cima da mesa do quarto e vestiu-se rapidamente. Horas haviam se passado, já anoitecia, e ele tinha marcado um jantar com Caio.
Na hora em que o médico chegou a rua Aurora, Francisco já o esperava no térreo. Falou para o amigo que tinha um problema, que bem- humorado, perguntou:
- É dinheiro ou mulher?
Francisco respondeu que dessa vez o assunto era sério, que havia uma pessoa morta lá em cima. Pediu que Caio não subisse e que não contasse nada à polícia até que ele se entregasse, depois que fosse ao Rio de Janeiro tranquilizar sua mãe sobre os fatos que se sucederiam e arrumasse um advogado.
Assustado ele acreditou no amigo. Combinaram que Francisco ligaria na casa da sogra de Caio, dando notícias no dia seguinte à noite. O médico saiu dali rapidamente, pensando em como se livraria da enrascada em que se havia envolvido.
Depois de muito pensar, chegou a conclusão de que não tinham muitas alternativas. Não havia dúvidas de que nas investigações seu nome se tornaria público, assim como as escapadas extraconjugais que aconteciam na quitinete. Era melhor que ele mesmo contasse à esposa e, com ela, resolvesse o que fazer.
O casal foi procurar um amigo delegado para se aconselhar. Este sem perda de tempo levou-os para a delegacia e denunciou o crime.
O responsável pela investigação foi o delegado de homicídios doutor Antônio Strasburg de Moura, que chamou imediatamente o Instituto de Polícia Técnica, solicitando a realização de exames no local.
Na noite seguinte, Francisco cumpriu sua promessa de telefonar para o doutor Caio na hora combinada. O delegado Strasburg estava lá, e depois de muita conversa, conseguiu o telefone de onde ele falava. O número pertencia ao Hotel Regente no Rio de Janeiro.
Francisco Costa Rocha foi preso em 5 de agosto de 1966. Já tinha conversado com um advogado, mas não com sua mãe. O delegado Strasburg ao chegar onde ele estava escondido, falou:
- Eu sou de São Paulo e acho que o senhor sabe por que estou aqui. Sou da delegacia de Homicídios.
Francisco respondeu:
- Pois não, tudo bem.
Sem reagir, o assassino que já havia conquistado a primeira página dos jornais foi levado para a 3ª Delegacia de São Paulo.
Francisco foi interrogado, mas não conseguiu apresentar um motivo para o assassinato que cometera. A polícia também desconfiava que o médico Caio havia sido cúmplice, pois os cortes no corpo de Margareth pareciam ter sido feitos por alguém com prática anterior.
Nos processos da época, consta a declaração de Francisco de que estrangulou e esquartejou Margareth Suida porque desejava dar vazão a raiva que sentia da própria vida.
A bailarina, segundo consta no interrogatório, lembrava a mãe do criminoso, que, abandonada pelo marido, vivia em companhia de um estranho. Além disso, Francisco disse que tinha a sensação de que sua potência e virilidade diminuíam, aparecendo em seu lugar um sentimento mórbido pela violência, que se expressava em apertar-lhe o pescoço e morder-lhe. O assassino teria perdido o controle, ao ser rejeitado e ridicularizado ao tentar fazer sexo anal com Margareth.
Francisco Costa Rocha foi condenado a 18 anos de reclusão por homicídio qualificado, mais dois anos e seis meses de prisão por destruição de cadáver. Posteriormente teve sua pena comutada para 14 anos, quatro meses e 24 dias.
Até 1972, cumpriu pena na Penitenciária do Estado. Ali fez supletivo de 1º e 2º grau, lia muito e era preso de confiança, trabalhando diretamente com a diretoria. Recebia muitas visitas, e foi a época de sua vida em que ficou mais assistido.
Uma visita que recebia com freqüência era a da amiga Catarina, com quem acabou se casando ainda quando estava preso. Com ela imaginou uma vida ideal, fora da situação prisional.
De 1972 até 1974, Francisco cumpriu pena na Colônia Penal Agrícola Professor Noé Azevedo, na cidade de Bauru.


(Foto: Matrix Desvendada)
Matéria de jornal sobre seu primeiro crime (Foto: F5)
Enfim, livre
Em junho de 1974, oito anos após ter cometido o primeiro crime, Francisco foi libertado por comportamento exemplar. No parecer, para efeito de livramento condicional expedido pelo então Instituto de Biotipologia Criminal, foi excluído o diagnóstico de personalidade psicopática e estabelecido que Francisco tinha personalidade com distúrbio de nível profundamente neurótico. Obteve progressão penal e então sua única obrigação era apresentar-se em juízo, a cada 90 dias, para anotação na carteira de preso condicional.
A vida conjugal caiu na realidade da rotina e logo começaram os desentendimentos. Francisco foi trabalhar na Editora Abril, na divisão de volumes. Continuava a ser bom vendedor, mas junto com o dinheiro veio a vontade de voltar para a boemia. Gradativamente, foi chegando cada vez mais tarde em casa, voltou a beber e passou a dormir na sala. Para complicar, Catarina engravidou e exigia do companheiro uma vida mais regrada. Sem conseguir “endireitar” o marido, o casamento acabou em separação ainda em 1974. A filha do casal nasceu em 1975.
Francisco começou a viver em pensões, hotéis baratos e apartamentos alugados ou emprestados. Voltou a usar drogas e mudou de emprego algumas vezes por conta da inquietude e da frustração que passaram a permear outra vez sua vida.
Quando morou no bairro Liberdade, conheceu Berenice, por quem teve o que chama de “paixão carnal”. Com ela também teve um filho, mas isso não impediu que Francisco se entregasse cada vez mais aos programas da Boca do Lixo em São Paulo. Era a fase do sexo, drogas e rock’n’roll.
Em maio de 1976, novamente sem ter onde morar, Francisco procurou Joaquim, seu antigo amigo e fiador. Apesar de ter conhecimento de seu crime anterior, Joaquim deixou que Francisco ficasse em seu apartamento durante algum tempo, até que arrumasse uma nova moradia.
Em 13 de setembro de 1976, a empregada doméstica Rosemeire, de 20 anos, conheceu Francisco na Lanchonete Elenice, onde ele a convidou para acompanhá-lo ao hotel Carnot, juntamente com mais um casal.
Enquanto estavam tendo relações sexuais, Francisco começou a ter um comportamento bastante violento. Mordeu sua parceira várias vezes, além de tentar esganá-la. Segundo o depoimento da moça, ela desmaiou, e quando voltou a si percebeu que Francisco tentava morder a sua “veia do pescoço”. Ao levantar-se, sangue escorreu por entre suas pernas. Fugiu do hotel sem demora e procurou atendimento médico no pronto-socorro da Santa Casa de Misericórdia. Ali, por meio de exames feitos por médicos e investigadores do hospital, ficou constatada agressão no útero por instrumento pérfuro-cortante desconhecido, tentativa de estrangulamento, além de mordidas pelo corpo. Rosemeire, que estava no início de uma gravidez, perdeu o bebê. Em 15 de setembro foi instaurado um processo contra Francisco Costa Rocha por lesão corporal dolosa.
Entre a saída da prisão e a fatídica noite de outubro de 1976, quando Francisco cometeria seu segundo crime, ele mesmo notou a escalada de violência em que se encontrava. A cada relação sexual que praticava, seus instintos sádicos estavam mais exacerbados. Por volta de meia dúzia de mulheres sentiram a agressividade dos “quase” estrangulamentos, mas como a excitação sexual por privação de oxigênio (hipoxifilia) é prática comum em relações sadomasoquistas, não reclamaram. Quando a condição sádica é severa, e quando está associada ao transtorno da personalidade antissocial, o indivíduo pode ferir gravemente ou matar suas parceiras. Francisco sabia que esse dia não estaria longe.

Segundo Crime
Foto de Ângela (Foto: Matrix Desvendada)
No dia 15 de outubro de 1976, uma sexta-feira, Francisco conheceu Ângela de Souza da Silva, 34 anos, também na Lanchonete Elenice, na esquina da Rua Major Sertório com a Rua Rego Freitas. Ângela era uma prostituta acusada de roubos e furtos, que utilizava sete nomes diferentes: Benedita Ozório de Souza, Suely de Souza Silva, Sonia da Silva, Maria de Souza, Sonia Aparecida de Souza e Sonia Aparecida dos Santos. Para Francisco, apresentou-se como Suely.
Ficaram durante toda a noite bebendo em diversos bares, pois Francisco sabia que só poderia usar o apartamento em que estava morando depois das sete horas da manhã, horário em que Joaquim já teria saído para trabalhar e o terreno estaria livre para a farra combinada.
Entraram no prédio da Avenida Rio Branco por volta desse horário, fato confirmado pelo porteiro do edifício. Chico agiu com crueldade, igualzinho ao crime anterior, matando Ângela estrangulada enquanto se relacionavam sexualmente. Pensando no que fez e nas consequências do ato, tentou esconder o crime, da mesma maneira que fez no anterior, arrastando o corpo até o banheiro munido de uma faca de cozinha, um canivete e um serrote. Ele arrancou os seios e retirou as vísceras do corpo, jogando-as no vaso sanitário. Ele percebeu que, dessa forma, não conseguiria se livrar do corpo da vítima, pois o encanamento entupiu. Decidiu então picar tudo bem miúdo para facilitar o transporte. Ele continuou a esquartejar o corpo pela cabeça, retirando-lhe os olhos e a boca para diminuir o tamanho do crânio. Segundo seus depoimentos (feitos assim que foi descoberto), o trabalho era difícil, pois nunca havia trabalhado como açougueiro ou em hospitais, e como não sabia cortar em partes um corpo, usou um serrote, partindo a vítima em pedaços. Assim que acabou, abriu a água do chuveiro e lavou as partes do corpo na banheira e as colocou em sacos plásticos. Francisco acredita que levou quase quatro horas 'trabalhando' no corpo de Ângela. Colocou tudo na sacada do apartamento para evitar que Joaquim descobrisse seu crime. Cansado, sentou-se no sofá e adormeceu, acordando ao som de uma campainha que tocava insistentemente, porém não se levantou para abrir a porta.
Do outro lado da porta era Joaquim. Eram 15h30 quando ele chegou ao apartamento, mas Francisco havia passado a trava na porta e ele não conseguia entrar. Joaquim, então, foi para casa de um sobrinho fazer hora.
Francisco acordou quase 18h30, pensando em arrumar um carro com um conhecido para levar o corpo repartido para o Rio Tietê, onde desapareceria. Ele saiu atrás de um antigo colega para conseguir uma arma e de um outro amigo, dono de um Dodge Dart, mas não encontrou os dois. Os corpos ficaram no apartamento, e na sua ausência, Joaquim retorna pra lá. Ao entrar no banheiro, encontrou tudo molhado e um feltro de enceradeira encharcado e largado no chão, recolhendo-o para colocar na sacada. Ao abrir a porta do terraço, Joaquim encontrou uma mala, uma sacola e sacos plásticos e imaginou que ali tivessem peças de um manequim. Abriu tudo, e lhe caiu a ficha de que se tratava de um corpo de verdade e totalmente retalhado. Ao lembrar-se do primeiro crime cometido por Chico, chamou a polícia rapidamente.
Enquanto isso, o criminoso, sem conseguir realizar seus planos e com a certeza de que seria preso, tentou voltar ao apartamento para livrar-se das provas do crime e se deparou com um carro de remoção de cadáveres, e resolveu fugir.
No dia seguinte, estava no Rio de Janeiro, onde embarcou na Central do Brasil em um trem com destino à Japeri, pensando em tirar a própria vida ao se jogar pela porta. Sem coragem, voltou para o Rio de Janeiro e dormiu na Praça Mauá em uma marquise de edifício antigo.
Em 17 de outubro, seu nome e sua fotografia estavam em todos os jornais. Perdido, subiu em uma barca que ia para Niterói. Pensou em se hospedar num hotel, mas o então presidente Ernesto Geisel estava na cidade, em visita oficial, e com isso havia ali vários policiais.
Assim, foi para a praia de Icaraí e não achou lugar pra ficar. Andou bastante e encontrou uma gruta na praia de Ingá, sobrevivendo por alguns dias catando marisco, tarefa que aprendeu com um pescador local. Sem dinheiro, voltou para Niterói e vendeu seu relógio, mas recebeu pouco dinheiro.
Sua única chance de escapar seria sair do país, mas para isso tinha de encontrar um velho amigo de cela que poderia ajudá-lo: Baianinho Charlatão, que ficava sempre pelas redondezas da Praça do Pacificador, em Duque de Caxias.
Deu certo. Baianinho Charlatão já sabia de tudo pelos jornais. Os dois conversaram e o velho amigo se desculpou por não poder levar Francisco para sua casa, onde a esposa certamente reconheceria o famoso foragido. Prometeu arrumar dinheiro para ele, que seria entregue às 10 horas do dia seguinte, no mesmo local.

(Foto: Matrix Desvendada)
Preso Novamente
Foto de 1976 em sua segunda prisão
Em 26 de outubro de 1976, Francisco Costa Rocha foi preso pelo detetive Amadeu Vicente logo depois de encontrar-se com o amigo que iria ajudá-lo a escapar. Nunca ficou claro se Baianinho Charlatão era informante da polícia ou não. Nos bolsos de Francisco, agora já chamado por todos de Chico Picadinho, encontrava-se o comprovante de uma passagem de ônibus da Viação Cometa do dia 16 de outubro, para as 23h58. Voltou para São Paulo num avião fretado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado e foi recebido na 3ª Delegacia pelo doutor Erasmo Dias.
Em seu julgamento, a defesa afirmou que o motivo dos assassinatos não fora torpe, justificando que Francisco sofria de insanidade mental e seus crimes eram conseqüência da perturbação do réu. Alegou também que aquele era um homicídio simples, sem dolo, pois o motivo da retaliação do corpo da vítima não era sua ocultação e sim o transe de perturbação mental do momento. A acusação discordou, obviamente.
Francisco, vulgo “Chico Picadinho”, foi condenado a 22 anos e seis meses de prisão, em um resultado controverso. O veredicto de culpado não foi unânime: quatro jurados votaram sim, três votaram não.
Em 1994, foi diagnosticado pelo Centro de Observação Criminológica com "personalidade psicopática perversa e amoral, desajustada do convívio social e com elevado potencial criminógeno", sendo levado para a Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté para acompanhamento psiquiátrico e relatório médico a cada seis meses.
Chico seria solto em 1998, mas em abril do mesmo ano, a Promotoria de Taubaté entrou na 2ª Vara Cível da cidade com uma ação de interdição de direitos e conseguiu uma liminar contra o assassino, utilizando um decreto de 1934 que prevê a interdição de direitos civis para pessoas que tiveram problemas sérios com a lei.
Francisco Costa Rocha continua preso na Casa de Custódia de Taubaté, onde já cumpriu sua pena, mas não foi solto por determinação da Justiça Civil por estar “despreparado para viver em sociedade”.

Ao cometer os dois crimes, agiu sob influência do romance Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski.

Matéria de jornal relacionada ao seu segundo crime (Foto: F5)
Matéria do jornal Estadão sobre Chico Picadinho, de 1976
Aparições recentes e situação atual
O meliante em 2010 (Foto: IG, capturada do vídeo da emissora Record)
Chico, que estudou Direito mas não se formou, é um homem lúcido. Desde o dia que chegou ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Arnaldo Amado Ferreira, em Taubaté, ele passa seus dias praticando pintura. É fã do escritor Franz Kafka (1883-1924).
Em 2012, seu advogado de defesa, Eduardo Kenji Shibata, disse ao G1 por telefone que Chico estaria manifestando o seu desejo pela liberdade, e sugeriu também que ele pudesse sobreviver com as suas obras de arte.
Em novembro de 2015, o Tribunal de Justiça negou mais uma vez a liberdade para o criminoso por ele não ter condições de viver em sociedade.
NE10 - Foi citado no livro Assassinos Seriais - o poder da sideração e do superego arcaico, escrito pela psicóloga pernambucana Marcela Monteiro e lançado em 21 de março de 2016. Para compor a obra, entrevistou pessoalmente este acusado e outros mais que chocaram o país, colhendo depoimentos que estão no livro.

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