terça-feira, 11 de outubro de 2016

A vida de Dolores Gonçalves Costa, ou simplesmente Dercy


Os primeiros anos da vida de Dercy Gonçalves não foram flores. Nasceu numa família pobre em Santa Maria Madalena, no interior do RJ, em 23 de junho de 1905, sendo registrada em 1907 pois naquela época isso era muito comum de acontecer. Era filha do alfaiate Manuel Gonçalves Costa e da lavadeira Margarida Gonçalves Costa. Sua mãe abandonou o lar e os sete filhos por infidelidade do pai, quando ela ainda era pequena, sendo criada apenas por ele, que era alcoólatra. Sofria preconceitos por ser chamada de 'negrinha', pois era neta de negros.

Dercy Gonçalves em 1928
Dercy em 1943
Dercy Gonçalves em 1957
Se interessou pela vida artística ao trabalhar na bilheteria de um cinema da cidade, aprendendo a se maquiar e atuar como as artistas, e aos dezessete anos, destinada a tornar seu sonho de ser atriz realidade, fugiu para Macaé para se juntar a uma trupe de teatro, a Companhia Maria de Castro. Nessa companhia, conheceu Eugênio Pascoal, seu primeiro marido, com quem havia feito dupla em suas apresentações itinerantes. Casaram-se em 1932, e na primeira noite juntos, ele a violentou sexualmente. Por causa de ciúmes violentos de Eugênio, se separaram depois.
Ela contraiu tuberculose nas excursões com o grupo de teatro, tendo se curado tempos depois graças ao exportador de café Ademar Martins, que pagou as contas da internação da atriz para se tratar, já que ela não tinha dinheiro suficiente para isso. Os dois viveram um romance, embora ele estivera casado, e tiveram uma filha, Dercimar, nascida em 1936, a única de Dercy. Mesmo sendo casado, garantiu que ia registrar a criança, e colocou Dercy numa casa boa para se viver e ajudou nas despesas. Ia visitá-la de vez em quando, porém, um dia, não apareceu mais. Dercy, sem outra saída, voltou a trabalhar no teatro.
Sua primeira filmografia foi em 1943, intitulada Samba em Berlim. Fez também 'Depois eu Conto' (1956), 'A Baronesa Transviada' (1957), 'Cala a Boca, Etelvina' (1959), 'A Viúva Valentina' (1960) e 'Se Meu Dólar Falasse' (1970).
A TV Tupi foi a primeira emissora que Dercy foi contratada, em 1957, porém, só conseguiu êxito quatro anos mais tarde, quando foi para a Excelsior no programa Viva o Vovô Deville, no quadro A Perereca da Vizinha, que foi proibido de ir ao ar por causa da ditadura militar de 1964.

Dercy em 1968
Foto de 1980
Dercy, em 1992, pronta para desfilar na Unidos do Viradouro
Transferiu-se para a Rede Globo em 1967, onde apresentou um dos primeiros sucessos da emissora, Dercy de Verdade, um programa que realizava gincanas, entrevistas e incluía também a participação do auditório para discutir temas relevantes. Era realizado em São Paulo, sendo transmitido ao vivo às segundas-feiras. Em abril de 1969, o programa foi punido pela Censura Federal com 15 dias de suspensão, pois segundo os censores, a produção havia desrespeitado o artigo que proibia alterações feitas nos programas aprovados pela Censura. O programa Dercy de Verdade obteve 70% de audiência quando foi exibida.

Dercy em 1966, apresentando o programa 'Dercy Espetacular'
Voltou a aparecer pouco na televisão nos anos 70 e 80, pois estava envolvida no teatro, fazendo peças como 'Dercy Biônica', 'Dercy Vem Aí', 'A Gatatarada', 'A Difa...Amada', 'Tudo na Cama' e 'Dercy de Cabo a Rabo'. Retornou às câmeras somente em 1989, quando fez uma participação na novela 'Que Rei Sou Eu?', ganhando personagem fixo em novelas no ano de 1992, em 'Deus Nos Acuda'.

Dercy em cena na novela 'Que Rei Sou Eu?' (1989)
Ao lado de Cláudia Corrêa e Castro em 'Deus Nos Acuda'

A última vez que foi vista foi no filme 'Nossa Vida não cabe num Opala', numa rápida participação em 2008, ano de sua morte por pneumonia que causou uma sepse pulmonar e insuficiência respiratória, aos 103 anos. O estado do Rio de Janeiro decretou três dias de luto em memória de Dercy.

Dercy sendo sepultada
Dercy Gonçalves em 'Deus nos Acuda' (1992)
A atriz era considerada uma das artistas mais revolucionárias do século XX, sendo muito conhecida também por ser debochada e por soltar muitos palavrões. Está no livro Guiness de recordes por ser a única atriz que com 100 anos atuou em um filme.
Causou polêmica em 1991 ao desfilar com os seios à mostra, na escola de samba Unidos do Viradouro, com o enredo Bravo Bravíssimo.
Ela participou por cinco anos do Domingão do Faustão, no quadro Jogo da Velha.
No seu sepultamento, em sua cidade natal, ela pediu para que fosse 'de pé' para dar continuidade à sua caminhada após a morte.
Enquanto apresentava uma peça teatral, descobriu que na platéia havia um agente da Censura que anotava coisas consideradas 'desrespeitosas' pela lei da ditadura militar. Ela deu três palavrões para provocar o agente e cancelou o restante de sua apresentação, mandando devolver o dinheiro dos ingressos.

Dercy em 'Que Rei Sou Eu?' (1989)
Dercy em 2007
Frases:

"Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando, o que não me fazia sofrer eu achava bom."

"Tudo que passou, acabou. Eu sobrevivi."

"O ontem acabou. Não tenho mágoa de nada e nem saudade de nada. Vivo o hoje. Tenho alegria de viver, adoro a vida."

"Eu já fui acusada de tudo. Eu era "negrinha" [a avó era negra], menina de rua, mas nada disso me atingiu porque eu não sabia o que era o mundo. Não tinha nem amigos. Passeava na rua e era perseguida com 7, 10 anos, porque o negro é perseguido há séculos."

“Não acredito em santo nenhum. Minha religião é a natureza. Deus é um apelido. Ele pra mim não existe. O que existe é a natureza. Deus é fantasma, mas a natureza é a verdade”

“Eu vou sentir falta de vocês. Mas vocês também vão sentir a minha”

“Todas as manhãs, a solidão me deixa deprimida. Moro sozinha, tem três pessoas que se revezam para me acompanhar. Minha filha não mora comigo. Filho não gosta de mãe; é a mãe que gosta do filho. Eles crescem, ganham independência e passam a ter prioridades. Eu me animo no cair da tarde, às 16h mais ou menos. Luto para ter forças para sair. Aí me arrumo, vou pro bingo. Lá, sou muito bem tratada, ganho cartelas e me distraio. À noite, vou a festas, jantares, adoro comer. E volto pra casa, durmo feliz. Assim são meus dias, sem expectativa”







Dercy Gonçalves desfilando, em 1991, com os seios a mostra
Dercy e Zé Trindade
Fonte(s): Funarte; Wikipédia; Memória Globo; Cinema Clássico; Gshow; Dercy de Verdade (programa)
Imagens: UOL; Correio de Uberlândia; Canal Viva; Abril; RD1; Funarte

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