terça-feira, 9 de maio de 2017

#EstadosUnidos - Imigrantes não denunciam abuso com medo da deportação

(Clic RBS) Los Angeles – Cristina conta que seu marido batia nela e a ameaçava há anos, mas foi só no ano passado que começou a temer pela segurança de seus filhos também. Relutante, denunciou-o e fez um boletim de ocorrência.
A imigrante mexicana que chegou aos Estados Unidos na adolescência, na década de 1980, deu entrada em um visto especial para vítimas de abuso que a colocaria no caminho da cidadania e de sua própria liberdade. Então recentemente, disse a seu advogado que já não queria o visto. Contou que estava com muito medo, não do marido, mas do governo.
"Tenho medo que eles me encontrem", disse em uma entrevista Cristina, que vive em um subúrbio de Los Angeles e que pediu que seu sobrenome não fosse usado.
A violência doméstica sempre foi um crime de difícil punição. Muitas vezes as vítimas levam anos para procurar ajuda e frequentemente têm que ser convencidas a testemunhar contra seus agressores. E para muitas delas, em situação ilegal, dar esse passo se tornou extremamente difícil por causa do medo de que o governo possa detê-las e deportá-las se derem queixa, de acordo com agentes da lei, advogados e defensores por todo o país.
Desde a eleição presidencial, houve uma diminuição acentuada de relatos de abuso sexual e violência doméstica entre os latinos nos EUA e muitos especialistas atribuem o declínio ao medo da deportação. Policiais em várias cidades grandes, incluindo Los Angeles, Houston e Denver, dizem que a consequência mais perigosa das mudanças na política e das declarações duras sobre a imigração é que menos imigrantes estão dispostos a ir à polícia.
O número de latinos relatando estupros em Houston caiu mais de 40 por cento este ano, em comparação com o mesmo período de 2016, segundo Art Acevedo, chefe do Departamento de Polícia da cidade. "Essa diminuição parece o início de um quadro em que as pessoas não denunciam crimes".
Em Los Angeles, este ano, os relatos de violência doméstica entre os latinos caíram 10 por cento e os de abuso sexual, 25 por cento em relação a um ano atrás, diminuição que, para Charlie Beck, chefe do Departamento de Polícia, provavelmente se deve ao medo do governo federal. Dezenas de prestadores de serviços e advogados entrevistados disseram que as mulheres imigrantes estavam decidindo não denunciar abuso nem dar queixa.
"Sempre dizemos às nossas clientes que, mesmo estando em situação irregular, não precisam se preocupar, que os policiais vão protegê-las", disse Kate Marr, diretora executiva da Sociedade de Assistência Jurídica do Condado de Orange, na Califórnia. O medo agora, no entanto, é diferente de tudo que já viu em suas quase duas décadas de trabalho com sobreviventes de violência doméstica, contou ela.
"Tudo o que já dissemos a nossos clientes foi esquecido. É muito desmoralizante e assustador imaginar o que acontecerá se isso continuar", disse.
O medo entre os imigrantes foi agravado por um caso em El Paso, onde agentes de imigração prenderam uma mulher em fevereiro, momentos depois de ter recebido uma ordem de proteção contra o homem que havia abusado dela. Na semana passada, a Comissão Americana de Direitos Civis, agência independente bipartidária, exigiu que os policiais federais reconsiderassem suas táticas de detenção em tribunais. A agência disse que o caso do Texas e de outras detenções semelhantes estavam tendo um efeito negativo entre os imigrantes em todo o país.
O Departamento de Justiça se recusou a comentar sobre as preocupações em relação ao medo entre os imigrantes.
A Laura's House, que todos os anos ajuda centenas de vítimas de violência doméstica no Condado de Orange, sempre pergunta aos clientes sobre seu status de imigração, para que possa ajudá-los a solicitar a proteção do visto, se necessário. Com o que é conhecido como visto U, vítimas de certos crimes recebem permissão para permanecer nos Estados Unidos se ajudarem a polícia – e a promessa do visto frequentemente convence vítimas de violência doméstica e abuso sexual a se apresentar.
Antes, quase metade dos mais de 70 casos novos que a Laura's House recebia por mês vinha de imigrantes ilegais; nos últimos três meses, esse número caiu para menos de um por semana.
Muitas mulheres compartilham as preocupações de April, de 23 anos, que esperou durante anos antes de apresentar queixa contra o pai de seus filhos e que pediu que seu nome completo não fosse divulgado.
"Eu chamava a polícia e usava outro nome, ou uma vizinha chamava. Quando vinha atrás de mim, ele dizia que eu seria mandada de volta para o México e nunca mais veria meus filhos. Acreditei nele por muito tempo", disse April, que cruzou a fronteira do México quando tinha cerca de oito anos e vive no Condado de Orange.
O Capitão James Humphries, que supervisiona a divisão de investigações de vítimas especiais no Condado de Montgomery, em Maryland, disse que teve vontade de relatar o retrocesso drástico da região, onde os imigrantes representam uma grande parcela da população. Sua unidade recebeu cerca de metade das chamadas por agressão sexual e violência doméstica este ano em comparação ao mesmo período do ano passado.
"Para nós, é um desafio constante tranquilizar a comunidade, dizer que nada mudou na maneira que operamos e que a Casa Branca não pode nos dizer como fazer nosso trabalho. Isso diz respeito a todos os crimes, mas se as vítimas de violência doméstica não se apresentam, a realidade é que não confiam na polícia", disse Humphries.
No entanto, o xerife Chuck Jenkins, do vizinho Condado de Frederick, em Maryland, é um defensor aguerrido do controle de imigração e disse que não há evidências de diminuição de denúncias entre os imigrantes de sua área.
"Eles não querem ser vítimas de ninguém. Nada do que fazemos nas ruas tem a ver com o status de imigração, e as pessoas de comunidades de imigrantes, legais ou ilegais, são inteligentes o suficiente para saber disso", disse Jenkins.
O Conselho de Violência Doméstica do Condado de Los Angeles normalmente recebia uma meia dúzia de chamadas por semana, com pelo menos metade de falantes de espanhol, mas, desde janeiro, recebeu apenas duas, de acordo com Olivia Rodriguez, a diretora-executiva.
"Isso não é normal. Eles acreditam que se chamarem uma entidade do governo, tudo está ligado, que serão delatados e mandados embora. E em vez disso, toleram o abuso", disse Rodriguez.
Yanet, de 56 anos, que pediu que seu sobrenome não fosse usado por medo da deportação, disse que havia sofrido mais de uma década de abuso do marido em El Salvador, onde as vítimas de agressão têm poucos recursos, antes de decidir fugir para os Estados Unidos, há vários anos. Ela trabalhava como cozinheira em cozinhas de Los Angeles e, em 2005, tentou obter um visto destinado a mulheres fugindo de violência.
Mas conta que o advogado que procurou tentou forçá-la a fazer sexo oral em troca de sua ajuda. Yanet a princípio ficou preocupada em denunciá-lo à polícia, mas acabou dando queixa depois de decidir que não ia mais ser uma vítima. Agora, está relutando em continuar com a acusação e o pedido de visto.
"Todos os dias tenho medo que algo aconteça. Tenho medo até de sair de casa. Fazer alguma coisa que chame a atenção do governo é pior. Não sei em quem acreditar ou o que é seguro fazer para me proteger."

Por Jennifer Medina