sábado, 13 de maio de 2017

‘Minha vida é dos meus filhos’: pastora trans fala sobre ser mãe

Na Igreja da Comunidade Metropolitana, no bairro da Santa Cecília (SP), a pastora Alexya Salvador recebe a reportagem do Catraca Livre para a primeira entrevista da série de reportagens "Mães que TRANSformam".
Enquanto os dois filhos dela (a sorridente Ana Clara e o amoroso Gabriel) brincam ao fundo, o marido Roberto trabalha na mesa de som ao lado do altar, local no qual ela contará um pouco sobre como foi ser filha e como é ser mãe, perpassando temas como transexualidade, preconceito, criação dos filhos e as batalhas constantes da maternidade.
Assista ao vídeo abaixo e, na sequência, confira a entrevista completa com a pastora Alexya Salvador:




Catraca Livre: Como era a relação com a sua mãe na infância e na adolescência?
Pastora Alexya Salvador - A minha mãe sempre criou a mim e à minha irmã de uma forma bem rígida, né? Tive uma criação bem linha-dura mesmo, em todos os sentidos. Mas sempre foi uma relação com muito amor.
Embora ela fosse rígida e quisesse que nós fizéssemos tudo certinho, ao mesmo tempo era uma mãe muito amorosa e presente em todos os sentidos da vida de uma criança. Eu tive uma mãe bem legal.

No que ela influenciou a sua maternidade?
O meu desejo de ser mãe vem de ver a minha mãe ser mãe. Eu tive uma infância muito difícil, e ela nunca mediu esforços com o meu pai.
Então tive o exemplo daquela mulher guerreira, batalhadora, e isso vinha sempre dentro de mim e eu pensava que, quando crescesse, teria a garra e a determinação que ela teve e tem ao criar a mim e à minha irmã.

E há alguma atitude que ela tinha que você não aplica hoje, ou acha que foi um mau exemplo?
Por mais que eu tente procurar, não vou achar maus exemplos. Mas, por ela ter sido muito rígida às vezes, eu falava que, quando tivesse os meus filhos, não seria tão rígida quanto ela. Mas hoje percebo que estou mais rígida do que ela ainda, sabe?
Eu acabo reproduzindo o jeito que ela me criou porque vi que deu certo comigo. Ela era muito brava, e eu procuro não ser tão brava ou exigente quanto ela, mas às vezes acabo sendo. Confesso. Igualzinho. É tal mãe, tal filha mesmo!

Você tem algum outro exemplo de maternidade?
Tenho sim: a minha avó, minhas tias... Porque as mulheres da minha família são mulheres guerreiras. Não tenho nada do que reclamar.
Todas tiveram as suas dificuldades e não desistiram de lutar, e lutam até hoje. Então eu herdo muito delas essa vontade de vencer e dar aos meus filhos tudo o que não tive a chance de ter.


E quais são as suas lutas?
São várias as batalhas, por ter hoje um filho especial e uma filha transgênera. Eu acabo pegando um leque bem diferenciado de outras mães em todos os termos.
O Gabriel tem as demandas dele relacionadas a aprendizado, e eu e o pai dele fazemos o que podemos e o que não podemos tentando buscar meios para que ele aprenda.
E por ter uma filha transgênera, vivo realidades que as outras mães não viverão. Eu e o pai dela procuramos criá-la mostrando que não vamos conseguir blindar todas as transfobias que ela vai passar (eu gostaria, mas não poderei fazer isso), mas a gente busca educá-la mostrando que a sociedade coloca muitos obstáculos. E ela deve crescer sabendo que o mundo não vai aceitá-la da forma que ela é, mas que ela tem que aceitar o mundo como ele é, pra ela mesma ser feliz.

O que a maternidade tem ensinado a você, tanto em relação aos filhos quanto sobre transexualidade?
A maternidade tem me ensinado e cobrado para que eu seja uma pessoa melhor em todos os sentidos. Ser mãe não é só dar comida, roupa, casa e estudo ou levar para passear. A maternidade mostra que, se eu for uma pessoa melhor dia após dia, eu serei exemplo tanto para o Gabriel quanto para a Ana, e também para as pessoas que me cercam, mesmo aqui na igreja.
E vou vivendo tentando ser uma pessoa melhor, uma mãe melhor, uma esposa melhor, uma filha melhor, uma professora melhor e uma pastora melhor.

Como você aconselharia outras mães, principalmente aquelas que lidam com o risco de transfobia contra elas e os filhos?
Eu digo para todas as mães, e não apenas as de crianças transgêneras ou homossexuais, que o melhor é o amor incondicional. Se houver um amor incondicional, ele é capaz de romper toda e qualquer barreira, esteja esta pessoa onde ela estiver.
Os desafios virão. Eu já enfrentei alguns que me fizeram contar até dez e, se não fosse mãe, talvez tivesse reagido de outra forma. A maternidade me leva a agir diferente. Então digo às mães que elas amem os seus filhos incondicionalmente e ouçam o que eles têm a dizer. Fazer isso abrirá portas e mostrará os caminhos, diminuindo os danos.
Danos vão existir. A sociedade faz isso 24 horas por dia. Então é um trabalho de redução de danos.


E o que você tem ensinado ou quer ensinar aos seus filhos?
O pai dela e eu ensinamos que o diferente nunca é uma ameaça. Esse diferente é o que a sociedade diz, quando na verdade não tem nenhuma diferença entre seres humanos. Então o diferente nunca é uma ameaça, mas sim um convite à reflexão. E eles devem respeitar as pessoas da forma que elas são, sem exigir algo que o outro não tem para dar.
Em casa temos um lema: “família é um cuidando do outro”. Não apenas eu ou o pai, mas eles [filhos] também vão cuidar da gente.
A mensagem principal é: respeitem as pessoas, ame o seu próximo e o resto a vida vai fazer.

E tem algo que você ainda não disse para eles?
Acho que não. Eu digo todos os dias o quanto eu os amo, o quanto eles mudaram a minha vida e eu vivo hoje para eles. A minha vida é deles. E eu peço todo dia que Deus só me dê saúde para eu trabalhar bastante e poder amá-los e cuidar deles até quando Ele permitir.