sexta-feira, 5 de maio de 2017

Mulher de 89 anos se forma em Direito


Martha Lucena Barreto é uma mulher guerreira, uma espécie de atleta de ponta, aquela capaz de romper as barreiras humanas, os recordes e os índices de rendimento. Aos 89 anos, acaba de subir ao pódio da vida. Sobre seu corpo, lançam-se confetes. O coro de felicidade grita: “vitoriosa”. A medalha de ouro: o cobiçado diploma de bacharel em Direito. Em punhos, ergue o canudo e mostra ao universo: “Sou dona do meu destino”.

"Penso que quando nos é concedida uma vida tão longa, longe do cansaço que as nossas antepassadas sofriam depois das suas jornadas, como mães de família responsáveis pelo lar, somos capazes de ver um futuro no qual podemos chegar a grandes realizações".

Martha Lucena
O circuito que a mãe, avó e bisavó percorreu é íngreme. Daqueles entremeados pelos piores obstáculos. Martha tropicou em um, tropeçou em outro. Mas sempre estava de pé. Voltou à sala de aula em tempos de jovens com leituras fragmentadas, que carregam o mundo nas palmas das mãos e se relacionam com dezenas de informações simultâneas. Não foi nada fácil. Estudava, estudava e estudava, desafiando a memória cansada de quase nove décadas incessantes. Por vezes, olhava as notas alcançadas e suspirava: “Ah, que injusta”.

"Pareciam aquelas notas que as professoras puxavam um pouquinho para cima para não verem o aluno malandro novamente na sala de aula. Ficava com uma saudade danada daquela menina que sabia Drummond (o poeta), o livro inteiro, e o aplicava nos seus momentos sensíveis".

Martha mora em Belo Horizonte, mas sempre visita Brasília, onde mata a saudade da filha Eliana Lucena, jornalista e uma das maiores autoridades da causa em defesa do índio. Aqui, convive com o braço da família que brotou no cerrado, com alguns bisnetos.

Martha e o primeiro marido, o médico Antônio, pai de Eliana
Sem nunca perder o humor, minha mãe está sempre disponível para um bom papo, com opiniões muito firmes e absorvendo as mudanças trazidas pelas gerações que acompanhou. Ao lado do meu pai, adorava tomar uma cachacinha boa, antes do almoço". - Eliana Lucena




Estudou em colégio francês. Foi educada para ser uma impecável mulher do lar. O pai, Alberto Deodato, advogado e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), era de convicções rígidas. O futuro das filhas? Casamento. Carreira? Só a de professora. Ele acreditava que universidade não era para uma “moça de família”. As meninas cresceram cercadas de aulas particulares de corte, costura, bordado e cozinha.

As filhas rebeldes frustraram todas a suas boas intenções. Ele lamentou o dinheiro totalmente perdido com as tentativas. “Minha irmã, coitada, chegou a fazer uma ameaça de atriz. Era a protagonista de rádio novelas da Rádio Inconfidência. A carreira foi interrompida por ele.”"

Apesar das tentativas, Martha e a irmã cumpriram o destino patriarcal. Foram felizes no casamento, criaram filhos, viram os netos crescer e os bisnetos nascer. Mas a inquietação de Martha era incessante.

“Não vou esconder que, no fundo, vivi sempre a frustração por não ter podido me dedicar ao Direito. Tentei fazer, nas brechas em que conseguia um tempinho, alguns cursos que me amansavam o coração.”"

Aos 83, depois de criar sete filhos, e de lidar com a morte que interrompeu dois bons casamentos, Martha plantou a coragem no coração e foi à forra. Tinha um lema:
“Se não tenho futuro, tenho o presente que ainda me permite sorver, com alegria, os conhecimentos que tanto desejei.”" 

Em sala de aula, percebeu, com alívio, o pensamento do seu pai, um homem assentado ao seu tempo. Entendeu que, ao entrar na área do crime (Direito Penal, sua escolha), não daria para se imaginar, uma moça, ouvindo os detalhes de estupros e crimes passionais.
“Isto na mão e a mão naquilo. Francamente, amigo, nunca poderia ser a minha área. Um alívio me conciliar tão longinquamente com meu pai.”" 

O perdão dado ao pai tanto tempo depois é o sinal da sabedoria de Martha, que se dirigia diariamente à sala de aula como se cumprisse um trecho único dessa maratona de obstáculos.

A família de Martha Lucena prestigia sua formatura
Certa vez, indo de carro para a universidade, o motorista a desejou boa aula.
“Professora, a senhora ainda trabalha? Aguenta bem esta meninada insuportável?
Ela sorriu, respirou e respondeu:
Não sou professora, sou aluna
Espantado, o homem se virou no banco:
“A senhora é cruzeirense ou atleticana?”.
Martha não titubeou: “atleticana”.
O moço berrou de felicidade:
“Galooooooo! Já ganhou!”.

Se formar em Direito aos 89 anos é mesmo um gol daqueles que enlouquece qualquer torcida. Uma vez, o cardiologista fixou os olhos em Martha, meio sem acreditar, e perguntou o que ela esperava ao acabar o curso de Direito? “Ora, seu doutor, serei Ministra do Supremo”.
“Penso, a caminho de casa: já que não serei ministra porque entraria para o STF aposentada, vou advogar. Quem seriam meus clientes? Vou ser solidária com minhas contemporâneas: a velhinha do pó, as assaltantes de supermercados, a velhinha que afastou o bandido com uma barra de ferro, aquela que roubou a tevê colocando-a debaixo de uma saia rodada, enfim, consultório lotado. Acho que vou atravessar o Arco da Velha.” "


“Atravessei o Arco da Velha” é título de um livro de crônicas de Martha Lucena lançado em agosto de 2016. Acabo de ler algumas crônicas com os olhos marejados e o coração aos pulos. Que cada segundo que seguirá na vida de Martha Lucena seja assim: pleno e feliz. A sua história nos contagia.
“Se temos algum ideal que escondemos, será possível realizá-lo nesse espaço de tempo que nos é concedido. Isso enche os últimos anos de nossas vidas de muita alegria e nos vem uma plenitude de ter vivido uma vida plena e feliz.” "

Martha e Eliana no lançamento do livro Atravessei o Arco da Velha
Fonte: Metrópoles