quinta-feira, 1 de junho de 2017

Anitta fala sobre futuro da carreira internacional: "Todo o meu planejamento foi até aqui. Não se compra um sucesso"


Anitta deu um passo importante para o início da carreira internacional nesta quarta-feira (31) com o lançamento do clipe de Paradinha, primeira música solo interpretada em espanhol. A canção foi escrita pela cantora em parceria com os produtores Umberto Tavares e Jefferson Junior em abril deste ano. E o vídeo parece ter agradado o público: ultrapassou dois milhões de visualizações em apenas duas horas. Apesar dos números expressivos aqui no Brasil, a funkeira sabe que vai precisar começar a carreira do zero lá fora.
— Como sou muito grande aqui no Brasil, minha carreira tomou proporções grandes, as pessoas esperam que a carreira comece já gigantesca nos outros países. Só que não é bem assim. Aqui no Brasil, tive um início. Comecei no subúrbio do Rio, depois fui para o Rio de Janeiro, depois para o Sudeste, depois para o Brasil. E assim é uma carreira internacional. Poucas pessoas vão me conhecer, depois mais e mais pessoas. Então, não dá para esperar que na primeira música seja um sucesso absoluto e que todo mundo esteja me escutando em todos os cantos do mundo. Vai ser um sucesso gradativo e espero esse resultado para definir os próximos passos.

Para a funkeira, o reinício serve também como uma forma de manter os pés no chão.
— Às vezes, para outras pessoas, pode ser difícil sair de um patamar em que você pode fazer exigência, que todo mundo te quer, quer falar com você e ir para um lugar em que você não faz a menor diferença. Elas não querem nem saber se você está ali ou não. Mas entendo o meu lugar, entendo o meu tamanho em cada lugar. Acho, inclusive, um exercício muito bom para mim de ir para um lugar em que não sou ninguém. Às vezes, minha equipe fica meio assim. Mas digo que sou fulana no Brasil e não posso querer chegar causando num país em que ninguém nunca me viu. Às vezes eu mesma tenho que puxar a minha equipe para a realidade e dizer que estou só começando e que as pessoas não sabem quem sou eu. A gente tem que começar tudo de novo. É difícil às vezes até para a gravadora, porque eles têm os meus números. Mas é preciso retroceder e começar de novo, do zero, como quando comecei.

A partir dos números de Paradinha é que Anitta vai decidir os rumos que vai traçar para a carreira no exterior.
— Não estou fazendo nenhum planejamento daqui em diante para fora do país. Todo o meu planejamento foi até aqui porque não se compra um sucesso. A gente tem como fazer uma música que acredita que é incrível. A gente tem como fazer um clipe que acredita que é incrível, apostar no que a gente acredita, mas não tem como ter certeza do que vai dar certo. Então, primeiro preciso ter feedback do público, saber o resultado dessa música. É a primeira vez que faço um lançamento meu com todo mundo junto: Brasil e outros países.

E a funekira está preparada para o que der e vier após a tentativa da carreira internacional.
— Pode ser que seja um grande sucesso em outros países. Pode ser que não seja sucesso nem aqui nem em outro país. Pode ser que toque relativamente bem. Me preparo muito e não faço nada de que não tenha absoluta certeza de que estou fazendo bem feito. Pode fracassar? Pode. Mas tenho certeza de que dei o meu melhor.


Ela se certificou também de que estava com o espanhol na ponta da língua e se cercou de profissionais para auxiliá-la no idioma.
— Chamei várias pessoas de países diferentes para deixar o meu sotaque o mais neutro possível. Depois do resultado, mostrei. Quem escreveu em espanhol fui eu. Só tive o professor do lado para saber se estava escrevendo certo. Já tenho aula de espanhol faz um tempo. Óbvio que não converso igual a uma nativa, mas me viro. Mas nativos me disseram que meu sotaque está ok e acredito neles [risos]. A questão de tornar público é a de entender que, por maior que você seja grande aqui, nos outros países as pessoas não têm ideia de quem você é.

Anitta planejou ainda a data de divulgação para conseguir bombar lá fora e precisou batalhar bastante para conseguir gravar em espanhol.
— Com certeza o verão europeu influenciou no lançamento da música, para dar tempo de a gente trabalhar até lá. A decisão de fazer em espanhol foi bem dura. Todo mundo ficou debatendo. A minha pesquisa sobre a música em espanhol começou tem dois anos, que eu já viajava para outros países para entender a cultura. Nessas viagens, entendi que em pouco tempo as pessoas estariam consumindo a música em espanhol em todo o mundo. O que eu precisava fazer era fazer o brasileiro se acostumar com a música em espanhol. Esse foi o diferencial que quis trazer: o espanhol. Bati o pé e consegui trazer. O nosso país já está consumindo esse tipo de música, já não é mais tão arriscado assim gravar em espanhol. Então, não é só voltado para o público internacional. Essa música a gente escreveu em português antes, mas amei. Achei uma música muito chiclete e falei: “tem que ser essa”.

Confira, a seguir, sobre quais temas Anitta falou durante a coletiva de imprensa na sede do Google, em São Paulo, nesta quarta-feira (31).

Funk, novo álbum e Reggaeton:
— Na verdade, nem estou fazendo álbum. Não gosto de álbum porque nos Estados Unidos, por exemplo, quando o álbum é muito bom, as pessoas escutam ele inteiro. Mas também o artista tem que ser muito grande já. Aqui no Brasil, ainda não é assim. As pessoas escutam o single. Às vezes, você faz o álbum inteiro e acaba jogando um monte de música boa no lixo porque as pessoas não vão ter o costume de escutar. Não estou fazendo álbum, estou fazendo músicas que vou lançar como single e clipe. Uma delas vai ter sonoridade de funk. Estou tentando sair agora do reggaeton, só tem mais uma que vai ser nessa sonoridade, até porque não foi criação minha. Mas vou fugir disso agora porque todo mundo está fazendo. Então, daqui a um tempo as pessoas vão estar cansando.

Mostrar o quadradinho para o mundo inteiro:
— É importante, para mim, que eles vejam a coreografia acontecer. O quadradinho eu sei que aqui no Brasil é muito comum, todo mundo já viu. Mas estou mostrando isso para outros países, para lugares que não sabem nem quem sou eu. Não dá para a gente fazer uma Anitta muito diferente, uma beleza diferente. Tem que fazer uma coisa mais perto do comum possível para me apresentar, porque são pessoas que nunca me viram na vida. Fiz a coreografia com a Arielle [Macedo], a gente sempre faz juntas porque ela tem uma parte mais técnica, mais balé, mais incrível e eu venho com a parte popularizando o que ela criou. Quero que meu público tente fazer. Então, não adianta vir um bailarino fazer movimentos impossíveis. Até tento não ficar tão boa na dança para conseguir compreender a mente de uma pessoa que não dança, para eu conseguir fazer uma coreografia que uma pessoa vai entender. Então, foi rápido. Ela me mostrou a coreografia, falei para trocar uns movimentos e já estava pronto.

Participação no Jimmy Fallon:
— Foi incrível, uma oportunidade muito boa. A Iggy foi muito generosa e muito paciente comigo, porque a questão do sotaque foi difícil. Cantar em inglês é um pouco mais complicado do que em espanhol, porque são fonemas diferentes, que a gente não aprendeu na nossa infância, então é complicado de tirar isso. No Jimmy foi histórico. Nunca um brasileiro cantou nesse programa ou em um programa dessa proporção. Me senti muito... as pessoas veem depois do que acontece, falam que foi incrível. Elas não têm noção de quão trabalhoso foi o caminho. Desde o estudo da melhor maneira de chegar até esse primeiro passo e até chegar nesse primeiro passo de fato. As pessoas encaram como um grande acontecimento, mas para mim foi só o início. Foi uma pequena participação, um pequeno início e uma demonstração do quanto precisa se lutar para conseguir uma coisa dessas. Aqui no Brasil é imenso, porque ninguém nunca tinha feito isso. Mas lá fora isso é pequeno. É comum. Uma pessoa fazendo uma ponta num musical. E já é muito difícil conseguir uma coisa muito comum e muito pequena como essas.


O preconceito sofrido pelos funkeiros:
— Acho que o funk é uma questão política. As pessoas reclamam do que a letra fala, do conteúdo, mas nunca pararam para enxergar a realidade do local, o ambiente em que vivem as pessoas que fazem. Então, para reclamar do conteúdo que o brasileiro está produzindo, você tem que entender o ambiente em que ele vive. Primeiro, você teria que modificar aquela realidade para a pessoa ter acesso a outras coisas para ela falar sobre outras coisas. Acho que o funk tem melhorado muito nesse quesito. Não vou ser hipócrita de falar que não tinha músicas que não são legais. Mas as músicas basicamente falam as mesmas coisas que as músicas em inglês, só que como não é a língua natural, as pessoas não entendem automaticamente o que está sendo falado. Quando ouve em inglês, acha lindo. Mas quando ouve me português, fala que não presta.

A mensagem que suas músicas passam:
— A minha música é para entretenimento, para as pessoas dançarem, se divertirem. Não necessariamente precisa ensinar a cultura do país, a política, a ciência, a biologia. É para você dançar na boate, na festa. Ela tem o objetivo de entreter. Eu ainda tento passar o recado de autoestima, de autoconfiança, de igualdade entre homens e mulheres e de você se curtir como você é. Mas tento fazer isso com uma linguagem legal, divertida, fácil. Imagina você chegar na balada, no clube, pra distrair a cabeça e você chega e lá e escuta um “a política do Brasil está muito ruim”, sabe? Como você vai curtir? Você procura maneiras divertidas e populares de falar sobre esses assuntos. Talvez as pessoas que tenham muita cultura e estudo e inteligência não saibam passar isso para uma linguagem deles. Mas vai quebrando com o tempo. As pessoas que têm uma visão musical de fato, verdadeiramente, não acham isso do meu trabalho. Caetano Veloso, Gilberto Gil, que são grandes mestres da música brasileira, admiram o meu trabalho. E isso vai abrindo muitas portas para outras pessoas do funk, isso tira pessoas da criminalidade, da prostituição, das drogas, do crime. Quando a pessoa critica e tenta colocar para baixo um funkeiro, ela não faz ideia da mudança que o ritmo pode mudar na vida dessa pessoa e daquela população que está ali ao redor.

Parceria com Iggy Azalea:
— Não é pouco espaço que a Iggy me deu. É uma música dela, um dueto. Se você ver qualquer música internacional que é um feat, vai ver que tem gente que canta até menos. Se fosse um dueto, cantaria mais. Mas é uma música dela.

Anitta e o feminismo:
— Eu falo de caráter, não necessariamente de mulher e de homem. Às vezes, as pessoas entendem que você é uma pessoa que gera buzz, repercussão e se aproveitam disso para criar uma situação ou levantar uma questão. O que não gosto é de hipocrisia. Às vezes, as pessoas falam algumas coisas, levantam uma bandeira, mas nos bastidores não agem de acordo com o que falam. Ajo de acordo com o que falo. Sou feminista a partir do momento que sei que o feminismo é aquilo que luta pelos direitos iguais: mulheres, homens etc. Mas o feminismo, para quem entende, sabe que ele tem muitas vertentes. Às vezes isso se confunde, mas acho que o radicalismo não é legal. Se você não quer ser tratada de algum jeito, você não tem que fazer com o próximo, independente se é homem, mulher, travesti, qualquer coisa. Só acho que muita gente prega o feminismo, mas não age de acordo. Eu, por exemplo, sofro muito mais preconceito de mulheres do que de homens. Pela forma que danço, pelo meu tipo de música. Às vezes só querem levantar uma bandeira, mas são tão preconceituosas ou mais. As pessoas que julgam a outra, na verdade, não estão felizes com elas mesmas. Não acho que exista uma maneira certa ou errada de ser mulher. Existe uma forma certa de ser um ser humano, que é você respeitar o outro, você ser uma pessoa honesta, ter caráter...