quinta-feira, 8 de junho de 2017

‘Despacito fala de sexo com respeito’, defende compositora


Erika Ender pode ser um nome novo no Brasil, mas no restante da América Latina já marcou tamanha presença que entrou até para o Salão da Fama dos Compositores Latinos — grupo composto por figuras da indústria musical da região. Aos 42 anos, a cantora e compositora foi uma das responsáveis pela criação do hit Despacito, que ganhou remix com vocais de Justin Bieber e foi a primeira música em espanhol a chegar ao topo da lista “Hot 100” da Billboard, que avalia as músicas mais vendidas, em vinte anos.
Erika já trabalhou com artistas como Dulce e María e o brasileiro Leonardo, mas jura que não procura o sucesso e se preocupa mesmo é com a mensagem que passa. E a sensual Despacito tem mensagem? Bom, pode não ter lá nenhum conteúdo edificante, mas Erika garante que tem “respeito” pela mulher. A canção narra um flerte entre um casal em formação. Em certo momento, o homem diz, romântico, “Quiero desnudarte a besos / despacito”, verso que virou “Quero te despir com beijos, lentamente” na versão em português.

Filha de uma baiana e de um panamenho, Erika nasceu no Panamá, mas visita o Brasil todos os anos e possui o sotaque único de Salvador. Neste ano, ainda lançou o seu quinto álbum, intitulado de Tatuajes. Além disso, colaborou na tradução da versão em português de Despacito, que será lançada em uma parceria entre o cantor porto-riquenho Luis Fonsi e o sertanejo Israel Novaes.

Confira a entrevista:

Você esperava que Despacito fosse fazer tanto sucesso? Nem eu, nem Fonsi esperávamos tamanho sucesso. Nós nos juntamos na casa dele para fazer uma música com uma proposta diferente para a carreira dele, que é mais conhecido por cantar baladas e pop. Despacito estourou com Fonsi e o rapper Daddy Yankee, também de Porto Rico, chegou a marca de um bilhão de visualizações no YouTube e quando Justin Bieber entrou no meio, cantando em um remix com Fonsi e Yankee, ela foi para o primeiro lugar. Como latina, considero uma grande vitória para a nossa cultura e língua. Além disso, fico feliz de ser a única mulher, até o momento, a chegar ao Hot 10 da Billboard com uma música em espanhol.

A música em espanhol está finalmente ganhando mais espaço no mercado mundial. Como é fazer parte disso? É uma vitória muito grande para o mercado latino. O mercado latino tem muito a oferecer ao mundo, muita poesia, o espanhol oferece uma forma criativa, com respeito e responsabilidade, de falar da sensualidade. Além disso, é um momento muito especial, pois estou comemorando 25 anos de carreira, com mais de 40 singles e músicas gravadas por quase 200 artistas. Por causa disso, estou entrando no Salão da Fama dos compositores Latinos. Acho que esse momento está coroando uma carreira de muito trabalho e muito esforço e estou super agradecida com o universo.

Como foi adaptar Despacito para o português? Você sente que conseguiu manter a veia latina da música? Eu ia adaptar a música do zero, mas me falaram que o Israel ia cantar com o Fonsi, e então me mandaram uma versão que o Israel tinha feito com o irmão dele e eu mexi pouco, para ficar mais próximo do original. Também o ajudei o Fonsi a gravar, para manter a pronúncia mais natural possível.

Sua mãe é brasileira. Você vem bastante ao Brasil? Minha mãe é de Salvador e minha família materna inteira é brasileira. Meus pais se conhecerem na Bahia, enquanto estudavam medicina e ele levou minha mãe para o Panamá. Eu nasci e cresci no Panamá, mas minha mãe sempre cuidou para que nós mantivéssemos a língua e os costumes do Brasil, até para ficarmos próximos da família. Por isso, todo ano eu vou ao Brasil passar o Natal e o Ano Novo.

Você acha que o reggaeton ainda deve ganhar mais espaço no cenário internacional? Eu acho que o reggaeton já ganhou bastante espaço internacional e tudo na música são etapas. Eu gosto muito do ritmo para dançar, curto, não tenho problema com o gênero. A única coisa que eu tenho problema é a mensagem. Se a gente é comprometido com o universo, com a raça humana e com os valores, o gênero não tem importância. Na música Despacito, a gente cuidou que fosse uma coisa sensual, mas com respeito à mulher, dentro da poesia.

Como começou a sua amizade com Luis Fonsi? E como foi o processo para escrever Despacito? A gente começou a ser amigos há 10 anos e já escrevemos músicas até nos discos anteriores dele. Temos muito carinho e respeito um pelo outro. Ele me disse que estava preparando um disco e me chamou para uma sessão de composição. Quando cheguei à casa dele, ele já tinha parte do refrão de Despacito. Ele cantou para mim, “Despacito / Vamos a hacerlo en una playa en Puerto Rico”, e a partir daí nós começamos a estruturar a música.

Despacito está sendo traduzido para vários lugares. Você tem ideia de quantas versões já foram produzidas? Realmente, eu não faço ideia. Já encontrei tantas versões e paródias, em diferentes línguas e ritmos. Mas eu fico muito comovida com isso. Já ri muito, já chorei, porque é realmente incrível como essa música tem se conectado com o mundo todo.

Vi que você ainda não recebeu o valor dos royalties pela música. Já tem uma previsão e está animada com isso? O pessoal me pergunta muito isso, mas não faço ideia. Estou muito contente, especialmente pela música ter se tornado um sucesso global, dessa forma.

Fonte: VEJA