terça-feira, 13 de junho de 2017

Proposta que criminaliza funk lembra investidas contra o samba no século 19


A proposta popular que torna o funk 1 crime de saúde pública no país tem gerado polêmica. Na última 6ª feira, a cantora Anitta criticou fortemente a proposta ao compartilhar uma publicação do Poder360:

22 mil desinformados que estão precisando sair do conforto de seus lares para conhecer um pouquinho mais da bosta do nosso país 
https://twitter.com/Poder_360/status/869258791644086272 
A ideia recebeu 21.983 assinaturas em todo o país e virou sugestão legislativa no Senado Federal. A proposta foi apresentada pelo empresário paulista Marcelo Alonso. Ele afirma que os bailes funk “são somente um recrutamento organizado nas redes sociais por e para atender criminosos, estupradores e pedófilos a prática de crime contra a criança e o menor adolescentes (sic).”
O relatório final será feito pelo senador Romário (PSB-RJ), após recusa do colega Cidinho Santos (PR-MT). O texto está em tramitação na CDH (Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa).
O projeto contra o funk lembra as investidas contra o samba no século 19. O ritmo de matrizes africanas e influencia de escravos sofreu forte repressão por parte das forças dominantes da época.
Desde 2009, o funk carioca é patrimônio cultural do Estado do Rio de Janeiro. A proposta foi aprovada pela Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

No documento abaixo, por exemplo, disponibilizado pelo Arquivo Público do Estado da Bahia, o então subdelegado da cidade de Cachoeira (BA), Ignácio José da Costa, relata 1 incidente envolvendo o ritmo:


(o texto foi transcrito de acordo com a carta)
“Subdelegacia de Policia da Cidade de Cachoeira
7 de Novembro de 1875
In(lustrissi)mo Senhor
Tendo hontem a noite uma denúncia de que haviam alguns sambas em diversos lugares desta cidade e sendo ja meia noite, sahi acompanhado pellas patrulhas
e me dirigi aos lugares que me forão indicados a fim de fazer cessar os sambas e
providenciar como fosse mister.
Encontrei em uma caza no caquende um forte samba que fiz cessar, prendendo o dono da mesma caza, o qual sendo comduzido declarou que tambem fazia parte do samba um guarda policial de nome Francisco Bispo das Flores q(ue) naquelle acto sahia do interior da caza
Ordenei logo a prizão desse guarda q(ue) foi entregue a patrulha que me acompanhava e querendo esta dizarmalo não quis entregar-se e pondo elle tenaz
resistencia, a ponto de dezobedecer-me formalmente sem respeito algum, acometendo-me até de rifle em punho p(or) ofender-me o que teria conseguido se não fosse emediatamente obstado pella mencionada patrulha.
E como semelhante procedimento seja altamente reprehencivel e criminoso, levo o exposto ao conhecimento de V(ossa) S(enhori)a para p(or) providencias como o cazo exige, fazendo remeter o referido guarda ao commandante do respectivo corpo para
proceder de acordo com os preceitos dessiplinares, a fim de ser ponido com as penas em que tiver encorrido para deste modo manter-se elleso o principio da autoridade.
Foram testemunhas prezenciais os guardas. Francisco Pedro da S(ilv)a, Felismino Jose Per(ei)ra, Benedito Aurelio da S(ilv)a, Libanio Andre da Costa, e Manoel Mont(eir)o do Nacim(em)to
D(eu)s G(uard)e a V(ossa) S(enhori)a
In(lustrissi)mo Senhor
Manoel J(os)e Fortunato. M. De
Delegado de Pulicia desta Cidade
O Subdelegado em exercicio. Ignácio J(os)e da Costa”

O samba, pelo menos desde a metade do século 20, virou uma das principais atrações do país para o exterior. Desde o samba raiz à derivação mais melódica (o pagode), o ritmo conquistou adeptos em todo o Brasil.

Fonte: Poder 360