segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Sobrevivente do Carandiru diz que foi salvo pelo Salmo 91


"Mil cairão ao teu lado e dez mil a tua direita, mas tu não serás atingido". Esse é um trecho do Salmo 91 que o sobrevivente do Massacre do Carandiru Sidney Francisco Salles, leu no dia em que houve a rebelião na Casa de Detenção, em São Paulo, onde estava preso em flagrante por roubo de carga de caminhão há três anos. A tragédia ficou conhecida como Massacre do Carandiru, que matou 111 presos no dia 02 de outubro de 1992, cujos corpos foram carregados por ele, que hoje é pastor evangélico, e outros mais que foram escalados pelos policiais que atuaram lá dentro.
No dia do massacre, Sidney comemorava junto com outros detentos a vitória de seu time, o Cascudinho, numa partida de futebol que terminou com 2 a 1, quando se depararam com uma briga entre dois detentos. Um deles ficou ferido, mas os carcereiros não foram socorrê-lo, gerando assim, na versão de Sidney, a rebelião. Fatos como este eram constantes, e ele já havia participado antes de duas rebeliões.
Os presos dos primeiros andares corriam até os últimos por causa dos tiros que policiais militares, acionados para conter a rebelião, disparavam, e como a sua cela, a 504E, ficava no último andar, Sidney correu até lá para ler o Salmo 91 inteiramente escrito por sua mãe, evangélica, e recebida uma semana antes. "Tinha 10 pessoas dentro da cela, todas agachadas rezando cada um pro seu deus. Eu não fiz diferente", diz.
Após o cessar fogo, policiais ordenaram que todos os presos retirassem suas roupas, ficassem completamente nus, e ficassem sentados no pátio externo. No dia seguinte, de madrugada, os presos foram ordenados a voltarem para as suas celas, e um dos policiais pediu para que Sidney carregasse, junto com outros detentos, os corpos do térreo para o 1º andar. "Ajudei a carregar pelo menos uns 35 corpos. Foi uma experiência de vida muito forte".

A Casa de Detenção de São Paulo foi implodida em 2002, dando lugar ao Parque da Juventude
Sidney tentou retornar para a cela depois do feito, mas ao chegar no 3º andar, se deparou com outro policial que lhe pediu a retirada de um cadáver que estava na cela 313E. "Creio que estavam [policiais militares] dando queima de arquivo em algumas pessoas [assassinando testemunhas]. Quando tive esse entendimento, soltei aquele cadáver e subi para o quarto andar".
Ao chegar no andar onde estava preso, três policiais apontaram para ele suas armas, e Sidney se explicou: "o tenente tinha mandado me trancar porque eu já tinha ajudado a carregar todos os cadáveres". Um deles lhe deu o molho de chave na mão e pediu que escolhesse a chave que abrisse a cela 504E. Se a chave não abrisse, Sidney seria executado. Por sorte, e também pela sua fé, isso não aconteceu. Ele escolheu a chave certa e entrou na cela.
Após o massacre, Sidney foi transferido para outra penitenciária, localizada no interior do estado de São Paulo. Quatro meses após ser solto, virou dependente químico e perdeu os movimentos das pernas ao levar um tiro na coluna. Decidiu, então, se livrar do vício ao procurar tratamento. "Passei um ano me tratando na casa de recuperação do Rio Acima e depois mais um ano como voluntário. Foi onde nasceu o desejo no coração de ajudar outras pessoas em dificuldades da mesma forma que me ajudaram. Achei que essa seria a forma de eu me retratar com a sociedade e agradecer a Deus pela nova vida".

Presos durante protesto no dia da rebelião, no Carandiru, em 02 de outubro de 1992
Hoje ele mora na cidade de Jundiaí, no mesmo estado, onde acompanha um trabalho social criado por ele mesmo em 1993, com objetivo de atender aqueles que se encontram na mesma situação de vida que a dele, quando estava preso e drogado.
O ex-detento diz que perdoou os PMs que foram absolvidos, afirmando que eles estavam apenas cumprindo ordens de seus superiores, e acredita que os verdadeiros culpados foram condenados pela "justiça divina". O ex-diretor da Casa de Detenção, José Ismael Pedrosa, que acionou a PM, e o Coronel Ubiratan Guimarães, o líder da operação, foram assassinados, sendo o último assassinato um mistério. "A lei divina fez o seu trabalho rápido".
Em 2007, Sidney Salles lançou um livro, Paraíso Carandiru, que contava sua história na cadeia e cujas vendas ajudaram nas despesas das unidades de atendimento a viciados em drogas que ele mantém.

Fontes
UOL
JJ (Jundiaí)
El País