quarta-feira, 28 de março de 2018

Curitiba é referência na música eletrônica e exporta talentos


Em 1992, Curitiba foi uma das três cidades brasileiras a receber o que ficou conhecida como a primeira festa rave em solo nacional — o L&M Music, um evento itinerante que passou também por São Paulo e Porto Alegre. Espécie de sintoma da efervescência no cenário da música eletrônica local, o evento aconteceu em uma época de mudanças: foi quando o público começou a migrar das gigantescas danceterias localizadas no bairros, como Studio 1250, Moustache e Sistema X, para o Centro da cidade. “Foi aí que começou a cultura clubber”, conta o DJ Hermes Pons, um veterano da cena.
“Eu considero que o primeiro club de Curitiba, tanto na estética como na música, foi o Orb Club. Foi o pontapé para aparecer todo o resto”, aponta Hermes. Surgiram então baladas como Época, Legends, Rave e Queen, entre outras, além de festas emblemáticas, como a Tribaltech. Um de seus idealizadores, por sinal, é também um dos patronos da música eletrônica na cidade: o empresário Carlos Civitate, o Jeje, um dos proprietários do Club Vibe. Algumas das aventuras mais significativas do estilo contam com as digitais dele — das festas em chácaras, passando pelo CarnaVibe (que em sua primeira edição, em 2015, reuniu 40 mil pessoas) ao atual Warung Day. Mas a pergunta é: será que essa história credencia Curitiba como um polo da música eletrônica no país?

Warung Day Festival de 2017. Foto: Fernando Zequinão / Gazeta do Povo.
“Com certeza”, defende Jeje. “Aqui a gente está um pouco na frente. O mercado de Curitiba gosta de coisas novas.” A opinião é compartilhada em parte por Henrique Oliveira — ou melhor, o DJ e produtor HNQO. “Curitiba é um lugar onde a musicalidade vai mais a fundo, então acho que a cidade pode ser considerada um polo nesse sentido. Mas não é uma cena com a mesma força de São Paulo, por exemplo”, afirma.
No entanto, Henrique é um exemplo de como a cena curitibana vem revelando talentos para outros locais. Como HNQO, ele já se apresentou em 35 países. No ano passado, seu álbum The Old Door ganhou distribuição internacional pelo selo alemão Kompakt. E ele não é o único a fazer sucesso fora do país. “Temos aqui o Marcioz, que lançou música por um selo holandês, temos a dupla Tropkillaz [que conta com o curitibano André Laudz], que acabou de lançar nos EUA uma música com o Aloe Blacc, entrando em um mercado que há pouco tempo você não esperava ver um curitibano”, opina Kelson Diego, o DJ kel., um dos fundadores da festa TRNSNT e do selo feel.u. “Em São Paulo ou no Rio tudo é um pouco mais organizado, porque lá as coisas acontecem há mais tempo. Mas Curitiba está no mapa, com certeza, e vai entrar mais ainda, porque está conseguindo dialogar com o Brasil e o mundo”, diz ele.

Mudanças
Atualmente, a cena passa por mudanças. Uma delas é a atual migração do público dos clubs para espaços abertos, opina Henrique. “A cena dos clubs não tem a mesma força de três anos atrás.” Hermes concorda. “É uma tendência mundial, por causa de vários fatores, tanto aqui como lá fora — preço de entrada, bebida cara, etc.”, diz ele. É como uma volta aos anos 1990, com as primeiras raves, explica ele, porém com uma diferença. “Antes, os festivais tinham mais uma característica cultural. As pessoas iam por causa da música. Hoje, a música é apenas mais um serviço dentro do festival. Você tem que ter várias coisas pra manter a atenção das pessoas.”

CarnaVibe de 2018 reuniu cerca de 40 mil pessoas em Curitiba. Foto: Divulgação.
Outra mudança significativa foi o surgimento das escolas para DJs e produtores, um segmento em que Curitiba se destaca. A cidade abriga duas conceituadas escolas: a Aimec (Academia Internacional de Música Eletrônica) e a Yellow. Essa última foi fundada por Christian Breta, o DJ Christ. “Curitiba acabou se transformando referência na educação em música eletrônica — nesse aspecto, é uma cidade muito mais forte do que São Paulo, forma muito mais gente, a diferença é gritante. Então estamos no lugar certo”, afirma.
Christ afirma que a cena em Curitiba, apesar de representativa, não é percebida como um polo além das fronteiras da cidade. “De toda forma, acho que está muito forte no nosso DNA a coisa da música eletrônica. Algumas pessoas de fora citam Curitiba como um ‘hub’ que conecta as coisas. Mas ainda há muita coisa a ser feita. Precisa amadurecer, aprender a se conectar melhor. Tudo é muito pulverizado. A hora que a gente se juntar, Curitiba vai se tornar um polo maior.”

Fonte: Gazeta do Povo