quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Vítima de médico estuprador em Assédio, Monica Iozzi diz: ‘Monstros estão entre nós’


Extra - O médico capaz de realizar o sonho da maternidade é também o monstro que faz de suas pacientes vítimas de violência sexual. A minissérie “Assédio”, livremente inspirada no livro “A Clínica: a farsa e os crimes de Roger Abdelmassih”, de Vicente Vilardaga, coloca luz sobre o pesadelo vivido por mulheres que sofreram abusos durante tratamentos de fertilização artificial. Na obra com toques de ficção, disponível a partir de amanhã no Globoplay, coube a Antonio Calloni dar vida a Roger Sadala, o especialista em reprodução humana que trocou a ética profissional pela violação de corpos femininos.
— Assédio é inadmissível, seja moral, sexual, do homem sobre a mulher, da mulher sobre o homem, do homem sobre a criança... Qualquer tipo de assédio tem que ser banido do planeta. Discutir esse tema é fundamental para a sociedade em geral — enfatiza Calloni, de 56 anos.

Distanciar-se do julgamento moral foi o caminho encontrado pelo ator para exercer o seu ofício.
— Nada que é humano me é estranho. Todo mundo tem todas as possibilidades dentro de si. Fui abrindo as minhas gavetas internas e tirando um pouco de perversão, ódio, amor, carinho... Enfim, todos os componentes que o personagem tem. Ele se tornou o que se tornou porque “adoeceu’’ com o poder que tinha nas mãos, desequilibrou-se e virou um criminoso. O instinto ganhou da cultura. É uma pena, mas isso, às vezes, acontece — lamenta.

Antonio Calloni interpreta médico criminoso na minissérie “Assédio”
Foto: Ramon Vasconcelos/Rede Globo/Divulgação
O silêncio das vítimas, que durou anos, constrastava com a imagem de homem gentil, sedutor e religioso que Roger desfilava pela alta sociedade de São Paulo. Não à toa, ele despertou paixões como a de Carolina (Paolla Oliveira), que se tornou sua amante e, tempos depois, mulher.
— Ela era casada, foi paciente dele e se apaixonou. Carolina acreditou em Roger e continua até hoje falando que ele não fez nada — destaca a atriz de 36 anos, em referêrncia à atual companheira de Roger na vida real.

Cenas de estupro em sério
Já no primeiro episódio de “Assédio’’, Roger estupra uma paciente, Stela (Adriana Esteves), enquanto ela está sedada para se submeter a um tratamento de fertilização. As cenas de violência sexual, recorrentes nos dez capítulos da minissérie, exigiram um cuidado especial para serem realizadas.
— Numa sequência de estupro é preciso ter cuidado com a atriz, combinar antes o que vai fazer, onde vai estar sua mão, como vai ser a pegada. Mas como existe muita técnica envolvida, não há nenhum tipo de desconforto nisso. Tenho um respeito profundo pelas atrizes com as quais contraceno — garante Antonio Calloni.

Paolla Oliveira e Antonio Calloni contracenam em “Assédio”
Foto: Ramon Vasconcelos/Rede Globo/Divulgação
Intérprete de Carmen, outra vítima do médico, Monica Iozzi não esconde sua indignação diante dessa história inspirada em fatos reais, que mais parece um filme de terror.
— Sendo mulher, é difícil assistir a uma coisa de tamanha violência. Os monstros estão entre nós — diz a atriz de 36 anos, que completa: — Um criminoso como Roger estar em casa me revolta. Essa série não é sobre os crimes dele, mas sobre a força das mulheres que conseguiram que ele fosse julgado e condenado.

Médico cumpre pena em casa
Um dos pioneiros da fertilização in vitro no Brasil, Roger Abdelmassih foi condenado, em 2010, a 278 anos de prisão por 52 estupros e quatro tentativas de estupro a 39 mulheres. Em setembro de 2017, o ministro Ricardo Lewandowski concedeu ao ex-médico — seu registro foi cassado em 2011 — o direito a cumprir a pena em casa.

Nenhum comentário: